Olá a todos! Aqui está um novo capítulo!

O trecho de música utilizado pertence aos Editors, da música "When Anger Shows".

Para madamenutso: Fico muito feliz que tenha gostado e se tenha emocionado! *.* Esta sua review foi das melhores que eu recebi! Também não consigo descrever o quão feliz fico com as suas reviews por isso acho que estamos no mesmo barco! ;) Obrigada por me deixar saber o quão aprecia o que escrevo e por notar melhoras na minha escrita! É muito importante eu saber tudo isso e motiva-me imenso a continuar e melhorar. Até à próxima :)

Espero que gostem e obrigada por lerem e eventualmente comentarem!

Neffer-Tari

PS – se houver alguma gralha ou falha peço desculpa.


Disclaimer: o do costume, ver caps anteriores.


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HOW COULD I EVER OVERCOME?
Hipóteses

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It creeps all over you like a dull ache
(Rasteja sobre ti como uma dor esbatida)
Think of all the things your hands could make
(Pensa em todas as coisas que as tuas mãos poderiam fazer)
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O que foi aquilo?

O que foi aquilo?

Draco cruzou os braços e expirou, mantendo os olhos fechados. Estava a ser inundado de imagens dela. O sorriso, o tom do cabelo, a forma dos lábios, a determinação do olhar. Precisava de parar com isto. Precisava respirar. Apertou mais os braços contra si. Estivera tão perto. Tão perto de lhe tocar, acariciar… Não. Era Granger. Era Hermione Granger. Era realidade, não era fantasia. Ele não podia.

Ele não queria.

Algo em si doía. Uma dor permanente, constante, que o estrangulava.

Enquanto estivera com ela… não doera.

Ela…

Será que ela sabia o que fizera por ela, das inúmeras vezes que a protegera de Voldemort sem saber o porquê? Foi por isso que aceitou acompanhá-lo? Não, não podia saber. Mas… e se soubesse apenas que ele a vigiara? Ou o quanto realmente se esforçara para que reconhecessem o seu valor? Não, também não podia saber. Teria sido por isso que se deixara levar por ela? Pela falsa segurança que lhe transmitia o facto de uma vez ter conhecido todos os seus hábitos e costumes? Ou teria o facto de finalmente poder observá-la de perto sido o suficiente para perder a razão?

E porque raio haveria de querer vê-la de perto?

Ele não queria.

Merda.

Ele não sabia, não fazia ideia.

Tinha tantas questões para lhe colocar, a ela e a si próprio. Apenas não sabia se queria realmente fazê-las. Provavelmente não. O desconforto irritava-o ainda mais. Ele era um homem, já devia ter passado há muito a fase dos pensamentos desordeiros. E tinha, de facto tinha, até Granger estar ao seu alcance. Havia qualquer coisa estranha nela. Alguma coisa naquela mulher não fazia sentido nenhum, para além do facto de ela parecer constantemente um caco (pelo menos na maior parte das vezes). Ele queria descobrir o que era, mas depois de hoje tinha receio de perder a noção de até onde podia ir.

Bem, pelo menos hoje, ele ainda tinha a noção disso.

Expirou, permanecendo de olhos fechados.

Hoje ele elegantemente saíra na Hora H. Muito bem, Mr. Malfoy. Foi uma atitude responsável de um adulto. Mas fê-lo porque precisava de espaço. Precisava de ar.

Detalhes.

Quando Hermione saiu para o ar nocturno um arrepio a sua espinha. A varanda era enorme e Malfoy não estava dentro do seu ângulo de visão. Não estava debruçado sobre o beiral, observando a noite escura. Não estava em qualquer ponto dentro da área da varanda, tentando ver alguma estrela no céu. Não estava num dos seus cantos observando a Lua cheia, forte e vibrante.

Susteve a respiração por um momento.

Terá ele aparatado para outo sítio? Deixara-a? Um ligeiro pânico começou a crescer no seu estômago. Excedera-se. Excedera-se ao aproximar-se tanto dele. Isto não era um sonho, não podia comandar as acções dele como fazia num sonho. Ele era real e ele realmente não se lembrava dela.

Ele não se lembrava dela.

Engoliu em seco.

Do que estava à espera?

Virou-se, resignando-se e convencendo-se a si própria de que isto era o melhor. Era melhor assim, assim não teria que o encarar. Assim…

Ao voltar-se, viu-o encostado à parede da mansão, junto a uma das janelas. Teria passado despercebido envolto em sombra, não fosse o seu cabelo louro pálido, que o denunciava onde quer que se encontrasse. De braços cruzados e olhos fechados parecia tão calmo… tão… sereno.

Aproximou-se sem o querer, parando na sua frente. As feições eram de um homem quase a chegar aos trinta, mas ela ainda via claramente o rapaz que outrora conhecera. Desconfiado, frio, descrente, assustado. Um rapaz que fora alterado ainda mais pelas circunstâncias da vida e se tornara num homem que ela não fazia ideia quem era.

Draco sentiu a sua presença.

Não conseguia compreender o porquê de ela estar ali. Não queria pensar nisso. Queria que o deixasse em paz ou pelo menos que lhe desse uma explicação. Conhecendo-a minimamente, teria mais hipóteses de obter a segunda.

Que irritante.

Que frustrante.

Quando ele abriu os olhos, o luar reflectiu-se neles e um desconcertante brilho prateado dominou-os. Brilhavam tanto… um brilho perigoso, surreal e zangado.

Ao olhar para ele, Hermione recordou a promessa que fizera e ainda não cumprira. Ela já deveria ter quebrado o feitiço e vê-lo olhar assim para ela assustava-a, era como se ele sempre soubesse que ela estava a fugir, a evitar e a esconder. O próprio Malfoy era assustador. Era assustador o facto de não importar o que ele fazia: se sorria, se mostrava uma expressão séria, se demonstrava raiva ou indiferença… ele seria sempre hipnotizante.

Era aterrador.

- Malfoy eu… peço desculpa pelo que aconteceu.

Ele não lhe respondeu, olhando-a apenas com o sobrolho franzido, os braços cruzados e expressão irritada, acusadora.

- Acho que me deixei levar, não sei o que se pass-

-Granger.

- Sim?

- O que foi aquilo?

Hermione aconchegou mais a pashmina ao seu pescoço, desconfortável.

- Provavelmente um copo a mais.

- Não – ele cortou novamente, tentando controlar a raiva – Não. – Apertou ainda mais os braços contra si. Não era o álcool nem a sua vontade, porque se fosse a sua vontade, ele teria conseguido sentir-se assim com outras mulheres. Havia algo de estranho, fora do normal, em toda aquela situação. Era o que seu instinto lhe dizia, apesar de não haver qualquer tipo de certeza ou de pista – O que é que se passa, Granger? Há algo… de errado… eu nunca…

"Eu nunca me envolveria com uma sangue de lama", foi a frase que chiou nos ouvidos de ambos. Uma frase que não foi dita, mas que pesava toneladas entre eles.

Draco precisava de saber que estava tudo bem. Precisa saber que o que acontecera eram coisas da sua cabeça, situações que realmente não existiram, pensamentos que não deveria ter pensado. Que o desconforto e a dor que sentia não tinham qualquer tipo de justificação relacionada com ela, que faziam parte da história dele, e só dele.

Hermione hesitou e desviou o olhar, magoada.

Deveria sequer responder? Ou seria melhor esconder? Não, esconder não seria opção, Malfoy não a deixaria escapar. Mas então, o que dizer? Mentir? Por quanto tempo conseguiria sustentar a mentira? E quando tivesse que lhe dizer a verdade, ele jamais a perdoaria, certo? Quanto mais tempo passasse, pior. Ela sabia, ela estivera no lugar dele. Bastara cerca de um ano para descobrir e ela recordava-se como se fosse ontem o choque isso lhe causara. Draco poderia estar a demorar mais tempo a descobrir mas isso é porque não tiveram contacto durante anos e os locais onde se encontram hoje em dia não são os mesmo que outrora frequentaram. Mas ele também iria descobrir, de certeza. E quando o fizesse, ela só queria que ficasse tudo bem.

Isso implicava cumprir a processa e quebrar o feitiço, não remar em sentido oposto.

Tinha que contar a verdade.

Baixou a cabeça, deixando os seus cabelos cobrir a face. Ela sabia que este momento eventualmente chegaria, mas nunca esperara que fosse tão cedo. Ou tão tarde. Apertou os lábios um contra o outro numa tentativa de fazer a boca mover-se e falar de uma vez. Uma parte de si estava satisfeita por finalmente quebrar o segredo e ser honesta quanto ao que se passara entre eles, encarar por fim as coisas de frente. Mas estava aterrorizada. Não sabia como ele iria reagir. Uma vida sem Draco significava uma vida vazia, mas ele ao menos seguiria em frente. Uma vida com Draco, mas sem memórias, era uma mentira tenebrosa até ela a quebrar, contar a verdade e perde-lo para sempre.

Isto era o melhor. Era o melhor mas…

- Eu… eu preciso contar-te uma coisa, Malfoy.

- Estou a ouvir.

Ela ergueu o olhar e corou ligeiramente. Tinha o coração na boca e custava-lhe falar devido ao medo que sentia.

- A-aqui não. Podes… - corou ainda mais - deixar-me em casa?

O quê?

- Prometo que conto lá. – ela acrescentou, rapidamente.

Draco permaneceu desconfiado. O que é que poderia ser assim tão importante que implicasse a predisposição de Granger em recebê-lo, a ele, em sua casa? Nada disto fazia sentido, mas ele queria que fizesse. Algo lhe dizia que depois de ouvir Granger, as coisas ficariam mais claras. Contudo, uma incessante certeza lhe dizia também que a dor não iria desaparecer.

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Hermione demorou dois minutos a abrir a porta de casa, protegida com todos os feitiços existentes e úteis para o efeito. Draco estava secretamente grato por isso, dera-lhe um certo tempo para camuflar na perfeição o turbilhão de emoções que sentia. Vigiara aquela casa durante um período da sua vida que preferia esquecer. Ainda estava bem presente na sua memória a calma e enfado que lhe transmitia, o pequeno-almoço que Astoria lhe preparava. Quantos anos passaram, seis? Talvez, mas mesmo assim não se sentia preparado para entrar naquele buraco que pertencia a uma sangue de lama. Recordava-lhe também que fora alvo de chacota de Devoradores da Morte e todos os actos de traição que contra eles praticou. Em parte, mas não principalmente, foram por causa dela. Ele não queria acordar essa parte de si mas também não queria esquecer pois fora isso que levara ao fim da Guerra.

- Entra – Hermione convidou.

Os passos que ele deu para o interior da pequena e pobre casa foram vacilantes, mas apenas ele sabia disso. Sentindo-se a sufocar, decidiu tirar o maldito laço do seu pescoço. Não queria olhar em redor e familiarizar-se com aquele espaço. Não queria saber nada da vida de Granger para além do necessário, mas queria respostas.

- Eu vou só lá dentro trocar de roupa, não demoro. Fica à vontade.

Era uma piada? Como é que devia sentir-se confortável naquele buraco?

Contrariado, olhou pela primeira vez à sua volta. A pequena cozinha não tinha separação do espaço que era a sala de estar. Não havia um hall de entrada. Não fazia ideia onde é que ela comia as refeições, não havia aquela coisa que os muggles veneram (salvo erro chamada "televisão") nem havia lareira.

O espaço pequeno começou a parecer-lhe ainda mais pequeno. O ar parecia faltar. Sem pensar, fez o que ela lhe dissera: procurou colocar-me mais à vontade – ou menos desconfortável. Quando Granger voltou, ele tinha cuidadosamente dobrado parte das suas vestes, agora pousadas sobre o sofá, e encontrava-se voltado para a grande janela, de mãos nos bolsos e camisa por fora das calças. Ela foi à cozinha buscar uma chávena de chá e ele declinou a oferta de uma para ele também.

- Senta-te – disse a mulher, apontando para o sofá. Ao mesmo tempo, sentou-se na poltrona que estava na diagonal, encolhendo os pés por baixo de si. Draco olhou para ela, agora sem maquilhagem, com o cabelo mal apanhado e um pijama em tons de pêssego. Não tinha nada a ver com a pessoa que fora consigo ao Baile de Beneficência e, mesmo assim, parecia-lhe atraente. De pijama. Raios. Precisava ir para casa e esquecer aquela noite.

Draco, recostando-se e apoiando o cotovelo no braço do sofá, usou a mão como apoio para o queixo. Os três segundos de silêncio pareceram uma eternidade.

- Estou à espera.

Hermione olhava pela janela e bebericava o chá sem lhe prestar muita atenção. Parecia procurar as palavras mais acertadas e a melhor forma de começar a explicar algo que ele começava a achar que não tinha explicação. Talvez tivesse sido apenas um relâmpago de magia desconhecida que acertara nos dois e depois desaparecera sem deixar rasto ou efeitos.

Ainda bem que não deixou efeitos.

- A minha chegada a Hogwarts não foi um momento muito feliz. – começou Hermione, falando baixinho e num tom de voz ausente – Estava eufórica, claro, como todos os primeiro-anistas, mas estava também receosa. Estudei tudo o que podia estudar assim que adquiri os livros para poder fazer amigos depressa e evitar sentir-me excluída. – olhou para ele, cuja expressão não demonstrava qualquer tipo de emoção. Viu isso como um incentivo para continuar – Mas logo no primeiro dia…

- Não estou aqui para saber a tua história de vida. – replicou o loiro, com azedume. Não estava disposto a ouvir como é que ela conheceu Potter e Weasel.

Ela calou-se.

Draco não se lembrava.

Como é que era suposto ele ouvir e esperar, pacientemente, que ela contasse a história da vida deles? Ele queria saber o que aconteceu, mas não tinha noção da dimensão da situação. Hermione lembrava-se de estar no lugar dele, do quão confusa estivera, de como andava desesperada à procura de uma justificação para aquela insanidade. E estivera apenas um ano sem memória. Draco estava há sensivelmente catorze. Era diferente. Era completamente diferente.

Será que ele a perdoaria? No fundo, Hermione não se apagara apenas a si das memórias dele. Ela anulara, de certa forma, parte dele. E só havia uma forma de a recuperar, sem histórias.

Uma única forma de ele acreditar.

Tentou, então, outra abordagem.

- Se te tivessem feito uma promessa… - ela recomeçou, falando com calma – cujo cumprimento mudaria a tua vida mas a pessoa a incumprisse durante… vá, dez anos, quererias que essa promessa fosse cumprida mesmo que alterasse a tua vida para sempre?

Draco franziu subtilmente o sobrolho. Granger ainda devia estar sob o efeito do álcool. Se alguém lhe tivesse prometido o quê há dez anos? Algo que mudasse a sua vida para sempre deveria ser importante, como é que poderia haver um atraso de dez anos no seu cumprimento? O que é que poderia ser tão grave e tão pesado que lhe alterasse a sua vida agora, depois de tudo o que passara? Draco não conseguia imaginar o que pudesse ser e, sinceramente, também não queria saber. Mudar de vida aos trinta anos é demais. Para além de que não estava mal assim: tentara recomeçar de novo depois da Guerra e, apesar de todas as dificuldades e incidentes, considerava-se indubitavelmente um homem realizado a nível profissional. Tinha também a sua mãe a seu lado e era respeitado, reerguera o seu nome depois de o seu pai o ter arrastado vergonhosamente pela lama.

Estava disposto a abdicar disso tudo?

- Não.

- Não? – Hermione pareceu surpreendida – Preferes passar o resto da vida sem conhecer uma parte de ti? Preferes viver numa mentira para o resto dos teus dias?

- Sempre vivi.

- Pensei que quisesses mudar.

- Não quero abdicar do que conquistei. Mas que conversa é essa?

- Se não quebrar o feitiço não posso explicar.

Draco fez um som de desprezo com a boca. Granger estava oficialmente doida, não dizia coisa com coisa. E ele achava que já tinha tido a sua quota de loucuras numa só noite. Agora que pensava nisso, desde quando é que Hermione Granger, a insuportável Gryffindor que ele tinha a infelicidade de saber que existia desde os seus 11 anos, o trataria daquela forma se estivesse no seu perfeito juízo? O álcool pode ser uma desculpa, mas não altera desta forma o comportamento de uma pessoa. Hermione Granger nunca teria certas atitudes que tivera, por muito mudada que estivesse. E ele também não. Significava que estava a ficar tão doido como ela? Não. Não, não, não, não, não. A brincadeira já fora longe demais.

Acabou.

Draco levantou-se e pegou nas suas coisas, encarando-a de seguida.

- Sabes que mais Granger? Chega. Vamos esquecer este disparate. Eu não quero saber de mais nada.

Voltou-lhe costas e encaminhou-se para a porta. Aquela noite era uma noite sem exemplo, o que acontecera acontecera apenas uma vez e não se voltaria a repetir. O ambiente era diferente e os dois tinham bebido. O que ele sentira na altura poderia perfeitamente ser um disparate que ele amplificara sem necessidade nenhuma. Agora, mais calmo e racional, podia ver as coisas desse prisma. Vir até àquela casa fora um erro, mas ele ia por um ponto final nisso o mais depressa possível. Ia também apagar aquela noite da sua cabeça e permanecer o mais afastado possível de Granger. Desta forma, as coisas voltariam ao normal.

Enquanto pensava, Draco procurou automaticamente a sua varinha para poder abrir a porta que o separava do mundo real. Parou quando se deu conta disso. A porta de casa de Hermione Granger jamais se abriria com um simples "Alohomora". Suspirou, irritado. Era possível piorar a situação? Raios partam isto tudo! Abriu a boca para ordenar a Granger que abrisse a porcaria da porta, mas antes que pudesse falar um feixe de luz surgiu na escuridão e um feitiço embateu contra as suas costas.

Hermione baixou a varinha quando o corpo de Draco caiu no chão.

Agira por impulso e desrespeitara-o. Traíra a sua confiança, mais uma vez. Contudo, ao vê-lo encaminhar-se para a saída compreendeu que aquele era o momento por que esperava. E poderia nunca mais voltar a surgir. Esta era a única atitude que podia ter dadas as circunstâncias.

Não havia outra hipótese.

Isto porque, afinal de contas, não era opção Draco não conhecer uma parte de si próprio.


Continua...