Capítulo I: O som de suas asas

Obs: menções ao episódio 22, A história de Miyu e ao último episódio do anime, Eterno Réquiem.

Das trevas ouviu-se o retumbar de asas alçando voo, caindo no abismo que é o infinito, mesclando-se ao tudo e ao nada – a escuridão, silenciosa e aconchegante.

Um nevoeiro se dissipava em um céu escarlate como sangue, onde o tempo havia se esquecido de preencher aquele lugar. Árvores de raízes secas e troncos tortos desenhavam contornos que perfuravam o céu avermelhado, rachaduras antigas e fendas que penetravam em tantos planos, em tantos mundos...

Eternidade – como uma música em baixa frequência a adentrar o mais profundo dos sonhos, vozes misturando-se a sussurros desconexos, de timbre grave. Ninguém ousaria dizer o que eles falavam em seus murmúrios.

Shinmas antes extraviados que haviam voltado para sua origem – a escuridão.

E entre as fendas do nada, uma mocinha quicava alegremente uma pequena bola branca no chão. Sua voz era gentil, mas curiosamente melancólica – profana como um epitáfio, sagrada como um réquiem. Sozinha, ela cantarolava uma cantiga que aprendera na infância.

Quicando uma bola tão redonda
É tão quente
De quem é? De quem é...?
De você...? Minha?
Minha...? De você?
Bolas preencham o mundo de vermelho...

- Chisato... Chisato... Você está tendo um bom sonho? – Sussurrava docilmente. – Você pode ficar aqui. Neste meu mundo, você pode ser criança para sempre. Há muitos amigos aqui. Boa noite...

Caminhou na ponta dos pés, como uma bailarina em seu último suspiro. Sentia-se exausta, apesar de saber que nenhum pulso corria em suas veias. E era isso que a prendia àquele destino.

Em seu mundo, a guardiã podia continuar alimentando-se de solidão, absorta em pensamentos e lembranças, tão voláteis como a mais fria neblina da madrugada. Por vezes vinha-lhe o rosto de sua mãe moldado pelos negros cabelos. Por vezes, os Shinmas protetores e seu teatro itinerante. Agora, teria o fantasma de sua amiga a rondar-lhe por toda a eternidade – a escola, os passeios, seu particular gosto por árvores, o cabelo acobreado... E, por fim, o amuleto da amizade.

A lua ao leste e o sol ao oeste.

O símbolo de sua fraqueza enquanto caçadora daqueles que um dia foram deuses e demônios. Um pequeno chaveiro marcado com uma lua e uma estrela. Representação do anseio de Chisato em nunca querer crescer. Ela sonhava em se tornar noiva do irmão, nutrindo ódio pelo responsável da morte dele, pela morte de seu sonho – a presença da guardiã eclodira o ovo nela, revelando a única finalidade de sua existência, ser uma ave.

Miyu... Você precisa de um quimono novo.

Por fim, a recordação de um gosto amargo invadiu seu paladar. Gosto de uma alma humana. Seu tio a havia forçado a experimentar, iniciando o rompimento do lacre de seu pai. Ela não teria escolha, de toda maneira. Era uma guardiã, ele uma ave. Ela estava destinada a caçar os Shinmas que haviam se libertado das trevas; ele, destinado a caçá-la.

Qual quimono escolherá... O vermelho ou o branco?

- Vermelho para os prisioneiros. Branco para os mortos. É uma escolha entre ser capturado, ou ser morto. – Murmurou para si.

Encostou-se ao pé de uma árvore seca, fitando o escarlate daquele céu viscoso. Vermelho como as chamas que ardiam em seu interior. Vermelho como o sangue de tantos belos jovens que havia provado. Vermelho, a cor do quimono que escolhera.

- Miyu.

Não se moveu, sabia de antemão quem a chamava. Aquela voz, em especial, ecoava no mais profundo de seu ser. Poderia reconhecê-la dentre todos os sussurros que penetravam na sua mente, em seu mundo – quer fosse das almas quebradiças as quais ela concedera felizes e eternos sonhos, quer fosse pelas maldições proferidas pelos Shinmas que enviara novamente à escuridão.

Sorrateiramente, seus olhos âmbares, os quais se perderam no escarlate daquele céu, reconheceram uma profunda íris também avermelhada a fitar-lhe, como se pudesse enxergar além de seu ser, desvendando seu silêncio, reconhecendo suas tormentas, provando do calor das chamas que ardiam em seu interior.

- Está tudo bem? – A voz masculina era serena, sibilava calmamente em um tom que vagava entre o sugestivo e o simbolismo.

- Diga-me, Larva... – Os olhos da guardiã não piscaram, mergulhando naquela íris rubra. – Foi difícil para você usar o meu fogo?

- Foi o meio necessário. – Sua voz soava sem vida. – É a prova da minha única derrota. Mas lâminas não iriam ferir meu oponente.

- Porque ele é uma ave. Como você.

E novamente, o som de grandes asas ecoou pela imensidão atemporal daquele céu.

- Talvez eu seja. É meu dever...

- ...Pôr um fim à minha existência quando eu sair da roda do destino. – Ela completou em um sorriso melancólico.

A máscara inexpressiva reapareceu fantasmagoricamente por trás do aparente corpo frágil e adolescente de Miyu. Ela se deixou envolver pela disforme e negra capa que vestia seu servo, duas mãos com garras vermelhas acariciando sua pele pálida pelo rosto, nuca e pescoço.

- Seu fogo arde dentro de mim. – Larva sibilava, pacientemente. – É o nosso elo de sangue, servir-te-ei até o momento que não precisar mais de mim.

Miyu recordava-se. O Shinma ocidental deveria aniquilá-la para então conquistar as terras nipônicas. Larva apareceu como a brisa que emerge do oceano sem fim, e lá estava ela, esperando pacientemente. Era seu dever como guardiã impedi-lo e mandá-lo de volta à escuridão. E o dever de Larva, enquanto espécime de ave; matá-la.

Porém, um silencioso elo, devastador e proibido, uniu ambos os Shinmas, distintos em natureza, mas fadados a seguir as trilhas do destino. Ave e guardião jamais poderiam se unir a princípio – mas ao provar do sangue de Larva e, consequentemente, deixá-lo que fizesse o mesmo; a vampiresa prometera sua vida a ele e, em troca, o teria como servo.

Naturalmente Larva tornara-se muito além do que seu criado. De fato, ele sempre viria quando ela o chamasse, defendia-a nas batalhas como exímio guerreiro e a aconselhava em suas estratégias enquanto caçadora. Mas, sobretudo, aquele elo atingira certo grau de intimidade que palavras simplesmente faziam-se desnecessárias. Nas entrelinhas de duas almas pertencentes às trevas, fadadas a caminhar sem rumo, Miyu encontrava conforto no colo e abraço dele. Sua voz fria como o prelúdio da morte aquietava a solidão que, ao fundo, ela nunca conseguira se acostumar.

Quem é você?

Já se esqueceu, Miyu? Eu sou sua amiga, Chisato. Vim porque você se sente sozinha. Porque você quer ter um amigo.

Eu... Não sei se quero ter um amigo.

Mentira.

- Larva... – Murmurou, aconchegando seu pequeno corpo ao redor do peito dele. – Você nunca se esquecerá da promessa que me fez?

- Nunca. Serei eu a tirar a sua vida, Miyu.

- Diga-me... – Suas pálidas e delicadas mãos retiraram a máscara do servo, expondo os finos traços de seu rosto, os levemente bagunçados fios azul-água de seu cabelo. – Quando este dia chegar, o dia em que serei selada... Como será? Irá... Doer?

- Confie em mim. – Foi tudo o que disse, acariciando a leve tensão nas costas da guardiã por infindáveis segundos.

- Sim. – Ela sussurrou, fechando seus olhos. – Nós devemos ir agora. Já ficamos tempo demais nesta cidade. E precisamos caçar os Shinmas extraviados.

Das trevas ouviu-se o retumbar de asas alçando voo, caindo no abismo que é o infinito, mesclando-se ao tudo e ao nada – a escuridão, silenciosa e aconchegante.

Qual quimono escolherá, Miyu... O vermelho ou o branco?