Capítulo II: A seda branca

Miyu já não sabia mensurar por quanto tempo havia vagado à procura dos Shinmas. Sua existência fora congelada, fadada a ser uma jovem de quase 14 anos até que suas obrigações fossem cumpridas. Enquanto não enviasse todos os Shinmas de volta à escuridão – sua responsabilidade enquanto guardiã –, ela não iria crescer.

Ironicamente, as lembranças da infância pareciam ganhar forma com extrema facilidade naquele lugar. Diversos ramos de trigo que pareciam ter sido recentemente colhidos por ceifadores humildes, o vento fresco e convidativo dançava pelas colinas, esparsos casebres de bambu preenchiam o ambiente bucólico daquela aldeia esquecida. Mais adiante, podia-se ouvir o chacoalhar de trilhos pela passagem do trem, deixando rastros de fumaça pelo caminho, acompanhado de cata-ventos artesanais que anunciavam a brisa do mar.

A guardiã caminhava lentamente pelas vielas estreitas, os olhos âmbares perdidos em memórias cada vez mais homogêneas. Não havia um ser humano presente, reinando absoluto silêncio.

- Meus pés guiaram-me novamente para este lugar. – Disse para si mesma.

Miyu reconhecia aquela simples aldeia. Era seu lar antes de despertar como guardiã, era o lar do túmulo de sua mãe, a humana que cometera o pecado de ter se apaixonado por um Shinma.

Momentos antes de seu aniversário, lua cheia a pairar no escuro céu como esta noite, aves famintas alçaram voo em direção ao novo guardião que despertava. Espantalhos, os Shinmas protetores, defenderam-na do ataque, cumprindo seus destinos. Após o despertar, Miyu descobrira seus poderes, o fogo que ardia em suas veias, fadada a caminhar atéo dia em que todos aqueles que já foram considerados como deuses e demônios, desaparecessem por completo.

E este dia chegara.

Ela realmente não conseguiria dizer por quanto tempo vagara, uma vez que o próprio tempo havia parado para si. Mas seu dever iria ser cumprido, restava apenas um Shinma extraviado em terras de sua responsabilidade.

Parou de caminhar ao topo de uma colina, sentindo o vento brincar com seus longos cabelos castanhos presos em sua caricata trança. Estava esperando por ele.

- Miyu.

Novamente a conhecida voz ecoou em seus ouvidos, colidindo no mais profundo de seu coração. Era serena e sem vida, um timbre suave e masculino, sagrado como uma prece.

Seus olhos se fecharam por completo, o rosto de sua mãe momentos antes de morrer invadindo sua mente. Miyu, você precisa de um quimono novo, ela dizia.

- Larva. – Mirou a infinidade âmbar na direção do último Shinma bem à sua frente.

Sob a lua cheia, única testemunha, lá estava Larva, com sua máscara inexpressiva, seguida da sombria e disforme capa de costume, bem como uma longa e afiada foice.

- Chegou o momento. Você deve me mandar de volta à escuridão.

- Porque sou a guardiã.

- É seu duelo final. E você não poderá fugir do seu destino. – Eleprosseguiu,completamente imóvel.

Miyu, contudo, limitou-se a sorrir. Seu servo, o qual atravessara o oceano para conquistar terras japonesas, era o último dos Shinmas sob sua responsabilidade.

Ela já havia cuidado dos mais variados espécimes – dos covardes que se alimentavam da ilusão e frustração das frágeis almas humanas, bem como dos pacifistas que apenas viviam entre as pessoas sobre inimigos e dos aliados.

Todos, sem nenhuma exceção, haviam sido selados de volta para a escuridão. Assim como Reiha, o demônio da neve – finalmente derrotada em sua última batalha travada com a guardiã, encarando satisfeita o resultado. Assim como o próprio Shiina, seu pequeno e felpudo mascote, gentilmente enviado às trevas, pois era seu destino como de todos os outros.

Restava apenas Larva. E, após o selo, Miyu não ousaria imaginar o que estaria reservado à sua existência. Não se tratava de escolhas e nem motivos – era apenas o implacável e certo destino.

- Tire a máscara. – Ela murmurou. – Quero ver o seu rosto.

Ele assentiu em total silêncio, revelando seus finos traços e cabelos em um leve tom prateado pela luz da lua cheia. O vento dançou pelo considerável espaço entre os dois combatentes, ao topo da colina.

- Você sabia que este dia chegaria? – Miyu perguntou hesitantemente.

- Sim.

- Por que nunca me contou?

- Eu sei da sua dor, Miyu.

A guardiã, em um suspiro, conduziu-os novamente ao seu mundo sombrio e atemporal, o céu escarlate, árvores secas e tortas.

Uma inquietude deveras desconhecida sentida em seu peito vez ou outra, tomou proporções devastadoras naquele momento. Olhar para Larva era encarar seu destino, um gosto mais cruel do que a batalha com Chisato. Provavelmente porque não mais se tratavam de duas existências que nutriam estima uma pela outra, mas sim de uma única existência – completude que Miyu não conseguiria descrever em palavras.

Se ela possuísse alguma pulsação, diria que estava completamente descompassada e acelerada. Os lábios ressecados e entreabertos tentavam encontrar alguma expressão que pudesse falar por aquele momento, apesar de sentir que no fundo Larva compreendia tão bem o seu silêncio...

As expressões no jovem rosto do Shinma ocidental eram um verdadeiro enigma. Olhos vermelhos que tragavam a essência de Miyu por completo, em um anseio torturante.

Eles tinham todo o tempo do mundo.

- Você deve me mandar de volta à escuridão. – Ele repetiu, fitando-a incessantemente.

E, assim como seus pés a haviam conduzido de volta a sua terra natal, Miyu deixou-se ir pelo fluxo, caminhando vagarosamente na direção dele.

Larva não moveu um músculo sequer, abandonando sua foice tão logo já podia sentir a vampiresa a poucos passos de si. A pele dela era completamente alva, os cabelos em um castanho sedoso, olhos profanamente dourados, misteriosos, infinitos.

- Então, este é o meu destino... – A doce e feminina voz sussurrou ao pé do ouvido dele, aparecendo fantasmagoricamente enlaçada em seu pescoço, o corpo frágil de adolescente mesclando-se com a esguia envergadura do guerreiro.

- Você deve cumprir o seu dever como guardiã. – Suas longas garras avermelhadas levantaram docilmente o queixo da menina, sentindo o calor que emanava da pequena camada de ar entre ambos os corpos.

- Eu declino.

- Miyu... – Larva murmurou, fitando-a, parecia-lhe tão distante, tão... Em paz.

Qual quimono você quer... O vermelho ou o branco?

- Não vou... Não posso selar-te. – Suas mãos pegaram as de seu servo, afiadas como verdadeiras lâminas.

- Recusa seu dever? Seu destino? – Uma de suas afiadas garras percorreu a maçã do rosto dela, tentando desvendar seu fugaz olhar dourado.

- Sim.

Vermelho para os prisioneiros. Branco para os mortos.

- Sabe o que isso significa... – Ele murmurou, sendo impedido pelos frágeis dedos da jovem, pressionando seus lábios.

- Shhh... Você me fez uma promessa. Cumpra-a. – Ela sorri, simplesmente.

E na distância de um instante, como o primeiro respirar de uma criatura viva; os finos lábios de Miyu foram selados por Larva, tocando-lhe gentilmente, descobrindo-a, acariciando-a.

Eles se pertenciam, eram apenas um. O Shinma ocidental serviria à vampiresa até o momento que ela não mais o quisesse, em troca, selaria a sua vida quando esta fugisse da roda do destino.

Em um longo abraço, Miyu deixou-se entrelaçar pela escuridão da capa de Larva, sussurros e suspiros emanando como o calor de chamas até engolir tudo, deixando o mundo confortavelmente envolto pelas trevas.

Era o selo da guardiã. E o fim do dever dos Shinmas fadados à sua destruição, as aves. Destinados ao esquecimento, como lendas antigas de tempos remotos – aqueles que um dia foram considerados deuses e demônios.

Miyu e Larva deixaram-se flutuar pelo vácuo, não havia mais dor, não havia mais culpa. Era uma sensação de paz que acariciava as duas almas pertencentes às trevas. Palavras, novamente, insuficientes para expressar as entrelinhas daqueles dois seres.

Restou-se, por fim, o eterno silêncio.E chamas... Que queimaram a seda branca.

...

Olá (: Espero que tenham gostado desta pequena shot!

Sei que a seção de Vampire Princess Miyu não é muito frequentada, mas espero que os leitores que recorrentemente visitarem esta fic, deixem algum review, eu ficaria extremamente feliz e honrada :D

Eu confesso que não gostei tanto do resultado, escrever sobre Larva e Miyu é muito complicado, mas não conseguiria um projeto maior, logo, acho que pelo menos passei um pouco daquele clima sombrio e melancólico do anime nesta shot.

Abraços! M.