Nota da (excelentíssima) autora: há que aproveitar uma pausazinha nos testes e fazer algo de útil para a sociedade, certo? Bom, e cá estou eu com Jahreszeiten ('Estações', em alemão), sobre um ano da vida do Aarne em Imladris. Vem em continuidade a Aranhas.

Jahreszeiten foi inspirada no álbum Jahreszeiten da banda de black metal alemã Nargaroth. Todos os 5 capítulos terão por base as 5 músicas do álbum:

Prolog(Prólogo)

Frühling(Primavera)

Sommer(Verão)

Herbst(Outono)

Winter(Inverno)

As letras estão em alemão. Estou perfeitamente consciente que nem todos os prováveis leitores devem dominar a língua germânica, mas não há traduções e eu, que tenho algum conhecimento da língua, tenho algum receio de traduzir mal. Mas se alguém quiser, posso sempre pedir a um amigo ou a um familiar que me ajude.

Para terminar, agradeço ao Mestre Tolkien por me deixar achincalhar a Terra Média, agradeço aos Nargaroth por terem feito este álbum fantástico e desafio os prováveis leitores a ouvirem um bocado das músicas.


Prolog

Ich weiß' nicht wer ich bin und wer ich war.
Ein Fremder vor mir selbst und neu für mich.
Und alt, wenn ich in Spiegel sehe.

Ich glaubte,
daß ich überall zu Hause sei,
und war schon heimatlos,
bevor ich noch ganz dort war.

Aarne ficou a ver a companhia de Mirkwood afastar-se, até por fim ser acompanhado para o interior. Rodeavam-no os filhos de Elrond, com sorrisos amigáveis, e os Valar sabem como o elfo sardento queria retribuir. Mas não conseguia. Revia mentalmente a parte em que só via as costas de Legolas, levado para longe pelo cavalo ruço. E afastava-se, e afastava-se, e afastava-se.

Quando deu por si estava no quarto. Um luxo, e ele, de origens tão humildes! Elrond estava lá com ele, de braços cruzados, imponente mas amistoso. Desalentado, Aarne sentou-se à beira da cama e piscou muito os olhos verdes:

-Queres começar já amanhã? - soou, súbita e agradável, a voz do meio-elfo. Aarne sobressaltou-se mas apressou-se a assentir - Excelente, estou desejoso de te ter a trabalhar comigo!

O elfo sardento assentiu novamente. Elrond estudou-o por momentos; franzino, involuntariamente encolhido de medo, uma palidez cadavérica e um par de olhos muito brilhantes, nervosos e irrequietos, que analisavam tudo. Sim, também não daria uma casca de alho por ele se o quisesse alistar no exército, mas dentro daquele elfo fátuo havia algo grande. Algo grande reflectido naqueles olhos, muito vivos num rosto mortificado.

Despediu-se e deixou-o. Caminhou até ao fundo do corredor, onde os filhos o esperavam. Os gémeos tagarelavam alegremente entre eles e a filha fitou-o, expectante:

-E então? - quis saber. Elrond suspirou:

-Elfinho curioso, aquele. Acho que vai ser muito bom para todos tê-lo por cá.

-Porquê? - indagaram os três jovens elfos em uníssono. Elrond limitou-se a encolher os ombros e seguiram caminho, silenciosos. Até que o meio-elfo franziu o cenho e olhou em redor:

-Caramba, cabeça a minha...! Agora reparo... Glorfindel, onde está esse maldito?

-Por aí. - respondeu Arwen. O elfo loiro gostava de deambular sozinho, mesmo quando havia visitas ilustres e recém-chegados.

Ich will nicht einsam sein und sehne mich nach Einsamkeit,
sobald ich nicht alleine bin.

Ich will ja lernen, lernen!
Und ich hasse meinen Schlaf,
weil er die Zeit stiehlt.
Aber ich bin so über-voll von mir.
Ich bin voller energiegeladener Ideen und voller Traurigkeit.

Ich will leben und ich will sterben.
Und ich tue beides oft.

Quando Elrond saiu, Aarne deixou-se cair para trás, psicologicamente exausto. Estava sozinho. Sozinho. Sem Legolas. Que grande aperto no coração! Cerrou os olhos, mas isso não o impediu de chorar. Enroscou-se a soluçar, desalmado, e por mais que tentasse não se conseguia acalmar.

Queria aprender, do fundo do coração! Queria ser um mordomo competente, queria que os irmãos mais novos o olhassem com respeito e admiração. Queria ser amado.

Mas... a solidão... a solidão custa tanto...

Ich war neugierig auf das Glück und siehe:
ich hasse das Gefühl des Glücks.

Ich war in Allem und wollte nirgends sein,
wenn ich in Allem war.

Ich liebe meine Sonne und ich hasse sie,
weil ich begreife,
dass ich ihr nicht entkommen kann.

Ich liebe Huren, Diebe und vielleicht auch Mörder,
weil ich ihr Schicksal liebe,
wenn sie eines haben.

Und auch die Verrückten,
wie sie die Menschen nennen.
Sie sind wie Blinde,
die schon lange sehen.

Auch alle Huren stehen über uns,
weil sie so viel zu leiden haben.

Veio um elfo perguntar-lhe se desejava comer, mas Aarne não tinha fome. Mal queria acreditar que ele, habituado a servir, ia passar a ser servido. Mundo louco, mundo louco!

Mas passado algum tempo acalmou-se, recompôs-se e foi até à varanda. O sol já se pusera e o seu rasto rosado já quase desaparecera, tragado pela escuridão da noite estival sem lua. Ergueu os olhos verdes para o céu e desejou que Legolas caísse daquela nuvenzita que passava, calma, por cima do vale. Mas não choveram Legolas.

Ich fliehe jeden Tag.
Und wenn die Nacht kommt und stehen bleibt,
die ganzen stundenlosen Stunden,
dann bin ich so sehr krank,
weil es nicht Tag ist.

Apoiou os cotovelos no parapeito da varanda e enterrou a cara nas mãos, desolado. Dormir num sítio estranho, numa casa estranha, num quarto estranho, numa cama estranha, com pessoas estranhas do outro lado da porta estranha! Tudo, tudo estranho, como Aarne odiava a estranheza e a novidade súbita! Voltou a fitar o céu, mexendo-se nervosamente. Abanou a cabeça e voltou para dentro.

Não tinha fome, não saiu para se juntar a Elrond e à sua família; tinha vergonha, medo. Pavor.

Ich hasse alle Kinder und doch knie' ich nieder,
wo ich eines seh'.

Ich suche mich und wenn ich mich gefunden hab',
bin ich mein größter Feind.

Mir brennt die eigne' Haut wie Feuer und mein Blut ist wie ein unberechenbares Tier.

Ich flieh' vor mir und meinem Leben und hasse mich,
der mich vernichten will.

Demorou algum tempo para se deitar. Andou à roda da cama, espreitou por baixo dela, bateu nela, observou-a escondido atrás de uma cadeira. Nada. Parecia seguro meter-se lá dentro. Tentou acalmar-se, mentalizou-se de que nada de mal lhe aconteceria; tudo seria bom para ele, tudo correria bem. Depois ralhou consigo próprio por ser uma criatura tão estúpida, tão desprezível.

Expulsou o ar dos pulmões e, pé ante pé, avançou até à cama. Espreitou novamente e deitou-se. Era a cama mais confortável onde já se tinha deitado, até mesmo melhor que a de Legolas. Sentiu o sono apoderar-se dele, mal encostou a cabeça às várias almofadas fofas.

No entanto... aquela janela... tão grande... aberta, sem se poder fechar... tão... tão a jeito de algum bicho asqueroso, nojento, babão, malcheiroso, peludo, que arrota e dá puns saltar para lá e entrar no quarto! Não! Não!

Sentou-se na cama, muito direito; não podia dormir! Tinha de se salvaguardar!

Aber ich bitte um Schmerz und schweres Leben und um Gedanken nach dem Fieber.

Ich will für jede Blume leiden,
wenn sie lebend stirbt.
Und will auf ewig dankbar sein,
wenn es in jedem Jahre Frühling wird.
Und will die Kraft abwarten,
nach den Schmerzen.

Gib mir Kraft die Zwischenzeiten auszutragen,
ohne Schrei und gib' mir Demut für den großen Schoß.

Cruzou os braços, nervoso; o tempo empancara, emburrara, não queria andar. Não se queria despachar. Aarne olhou lá para fora, para o escuro, e pensou em Legolas.

Que dor horrível, angustiante, dilacerante no coração! Uma dor que o fazia curvar-se e voltar a cerrar os olhos. Mordeu as costas da mão para abafar um gemido de dor. Dor.

Desejou puder adormecer e, quando acordasse, estar em Mirkwood, e de algum modo saber tudo o que teria de aprender naqueles dez longos anos.

Dez penosos anos.


Review?