Nota da (excelentíssima) autora: caramba, já notaram esta fic! Fico tão feliz, muitíssimo obrigada! E agora, sem mais demoras, este novo capítulo.


Frühling (Primavera)

Es klaget die Lerche ihr Hoffnungsgesang,
der alte Schmerzen vergessen macht.
Ich lausche in Tränen dem Frühlingsklang,
der Liebe nach tief-kühler Nacht.

Era primeira vez que Aarne não via as árvores majestosas de Mirwood trajarem-se a rigor para a Primavera. Era a primeira vez que Aarne não via Legolas derreter-se com os potrinhos recém-nascidos que cabriolavam no pasto. Era a primeira vez que Aarne não estava em Mirkwood para se certificar que Legolas vestia roupa adequada à estação e que não continuava encasacado.

Aarne era um elfo dividido: aprendera a adorar as manhãs, quando se levantava muito cedo e ficava com Elrond até ser hora de almoço, ou na biblioteca ou lá fora, a aprender sobre a arte da cura. Mas de tarde, quando o nobre elfo o deixava à vontade e ia tratar dos seus assuntos, o elfo sardento caía novamente no buraco negro da depressão. As manhãs solarengas evoluíam para uma tarde funesta e o elfo tentava, a todo o custo, forçar o tempo a passar, fosse lendo compulsivamente na biblioteca ou rezando os nomes de todas as plantas que conhecia até ao momento.

Isolava-se.

Der Krähen Klage dringt nicht an mein Ohr,
ich riß es aus meinem klagend' Gewissen.
Ich mordete alle Schatten hinfort,
die einst mich in Abgründe rissen

Naquela tarde os gémeos estavam particularmente barulhentos. O incomodado Aarne pegou no livro, quase maior do que ele, e mudou-se para um dos muitos terraços da casa senhorial. Perfeito, o silêncio tumular. Teve o cuidado de se sentar à sombra, voltou a abrir o livro e mergulhou de cabeça na leitura. De minuto a minuto fitava o sol, esperançoso, mas o astro brilhava, trocista, no mesmo lugar, sem menção de se mexer e dar lugar à lua.

Que irritante!

Aarne bufou, insatisfeito, e voltou a concentrar-se na leitura. Um livro deveras interessante sobre venenos. Mudou de página, e ao fazer isso não se apercebeu que alguém se aproximara e parara à sua frente. Glorfindel inclinou ligeiramente a cabeça, observando o elfo; vira-o havia algum tempo, aquando da sua chegada no Verão anterior, mas não tivera a oportunidade de o conhecer. Tudo o que sabia sobre ele era que se chamava Aarne e era o mais incomum dos elfos, com as suas sardas e madeixas de cobre.

Constituíam a minoria loira de Imladris.

Sem conseguir resistir por muito mais tempo, Glorfindel clareou a garganta e preparava-se para falar. Mas Aarne sobressaltou-se, fechou o livro com um estrondo e fitou-o de olhos arregalados:

-Não era minha intenção assustar-te. - assegurou o elfo de Gondolin, sorrindo. Aarne limitou-se a piscar, provavelmente sem ter a mínima noção sobre o que era aquele mamarracho à sua frente. E isso agradava a Glorfindel, poupava-o a toda uma série de formalidades irritantes e à eterna dúvida sobre as verdadeiras intenções da amizade. Puxou dum banquinho e sentou-se - Sou o... - elfo burro, se dissesse o nome estragava tudo! Levou um milésimo de segundo a encontrar a solução -... Glor.

-Aarne... - volveu o elfo de olhos verdes, sentindo-se perturbado pelo súbito ataque à sua privacidade e solidão. Sentiu-se tentado a continuar a ler... mas isso seria mal-educado e rude, e Aarne não podia ser mal-educado e rude com os elfos de Imladris. Glorfindel estudava-o, detendo os olhos nas sardas do outro elfo. Voltou a sorrir:

-Então... vens de Mirkwood? - perguntou. Aarne assentiu - Futuro mordomo do príncipe, certo? - Aarne voltou a assentir. Diálogos raçados de monólogo são extremamente desmotivantes... O elfo de Gondolin olhou em redor, em busca de inspiração, e depois voltou a fitar os olhos verdes de Aarne - Presumo que já conheças os cantos a Imladris.

-Nem por isso... - confessou Aarne, encolhendo-se involuntariamente no cadeirão almofadado. Que elfo tão estranho! Quereria alguma informação? - Hmm... se estás perdido, não vou ser muito útil e...

-Não, longe disso! - Glorfindel riu e ergueu-se. Aarne teve esperanças de que o elfo perturbador o deixasse, mas este tirou-lhe o livro e depois ergueu-o pelo pulso - Consta-me que lês a manhã toda. Vem e espairece um bocado!

-Eu espaireço a ler, obrigado... - retorquiu Aarne educadamente. Mas que trambolho, que empecilho! E o veneno dos cogumelos, que estava a ser tão fascinante...!

Tarde demais, já caminhavam pelo pátio, lado a lado, e o elfo de Gondolin papagueava animadamente sobre um qualquer assunto que passava completamente ao lado de Aarne. O elfo sardento suspirou; só havia um único elfo, em toda a Arda, que tinha autorização para fazer de Aarne um animal de companhia. Esse elfo era Legolas. E aquele elfo loiro, muito alto e largo de ombros, que falava falava e falava, não era, definitivamente, Legolas...

Ainda assim Aarne aturou-o e deambularam pela cidadezinha élfica. Anoitecia, finalmente, quando Glorfindel se calava, finalmente! Aarne sorriu inconscientemente, e esse sorriso não passou despercebido ao outro elfo:

-Feliz? - perguntou - Ainda à pouco parecias bastante desanimado.

-Eu gosto da noite. - confessou Aarne. Bom, não seria bem confessar. Confessar, abrir-se, só com Legolas. Mais ninguém, absolutamente proibido! Mas... bom, naquele caso estava a responder a perguntas... não ia contra nenhuma das suas regras pessoais, certo?

Glorfindel assentiu e fitou o céu que escurecia e onde já brilhavam, mortiças, algumas estrelas. Uma sombra de dor passou-lhe pelo rosto e Aarne ergueu uma sobrancelha. Não formulou uma pergunta, mas obteve uma resposta:

-A noite traz as trevas. - murmurou Glorfindel - E as trevas trazem o esquecimento.

Auch hab ich das blut-rost'ge Messer
wohl unterm Kirschenbaum vergraben
und habe den Dämon der Rache
in meinen Träumen erschlagen.

Amigos...

Família...

O amor duma vida...

Abanou a cabeça e voltou a sorrir para Aarne:

-E gostas da noite porquê? - ora, elfo intrometido! O elfo sardento começou a mexer no cabelo, nervoso:

-É o findar de um dia, e anuncia o começo de outro. É o passar do tempo, o render dos dias.

Um elfo com pressa, uma coisa que não se vê todos os dias! Glorfindel assentiu. Ficaram em silêncio por alguns momentos e Aarne aproveitou a oportunidade para olhar em redor, já que, de tão ocupado que estivera a tentar não ouvir Glorfindel, nem reparara por onde tinham vindo. Estavam numa espécie de plataforma que se projectava sobre um riacho galopante, que bastava estender a mão para tocar. Haviam descido por uma escada em caracol esculpida na pedra e, lá mais em cima, os telhados das casas reflectiam os últimos raios de sol.

Era um sítio belo mas um pouco vertiginoso. Glorfindel reparou que Aarne parecia desnorteado:

-Nunca aqui estiveste? - indagou. O elfo de olhos verdes abanou a cabeça, inocentemente - Precisavas mesmo da minha companhia! Anda, ainda há imensos sítios onde podemos ir, antes de jantar.

Não, Aarne não precisava daquele elfo irritante! Precisava da calma e conforto da biblioteca, da boa companhia de um livro! Mas lá foi, arrastado pelo entusiasmado elfo, e subiram as escadinhas em caracol. Durante a subida, Aarne teve tempo para examinar Glorfindel, e não resistiu a querer saber um pouco mais acerca daquela coisa tão chata que lhe tinha aparecido à frente:

-És da guarda? - perguntou. Pelo menos, as vestimentas de montar assim o indicavam. Glorfindel riu nervosamente:

-Nem por isso... Não... mas... já cá estou há bastante tempo, costumo sair por aí com as patrulhas...

Lindo, um vagabundo! Mas agora Aarne estava oficialmente curioso:

-Donde vens? - a temida pergunta... Glorfindel engoliu em seco e seguiram ao longo da alameda, lado a lado. Um par de elfos passou por eles e assentiram cordialmente ao elfo de Gondolin. Só desejava que Aarne não tivesse reparado:

-Oh, venho... venho de longe, muito longe. - voltou a sorrir, tentando recuperar a confiança. Um vagabundo duma terrinha esquecida algures... Aarne assentiu. Sabia que já o dissera antes, mas ia voltar a dizê-lo; pelo menos tinha uma pátria...:

-Venho de Mirkwood.

-Estive lá, uma vez. - para prestar homenagem ao príncipe recém-nascido. Mal o vira, pois um sempre alerta Thranduil evitava a todo o custo que se aproximassem muito do berço do seu precioso filho. Fez uma careta - Era Inverno, Elrond previra que ia nevar mas não nevou. Fiz figura de palhaço, atafulhado de peles...

Aarne tentou abafar o riso. Subiram um lanço de escadas ladeadas por roseiras. As rosas, laranjas como chamas duma lareira convidativa durante o Inverno, estavam fechadas, mas ainda assim abelhas teimosas tentavam estender o horário laboral. O elfo de olhos verdes encolheu-se; abelhas, que medo! Alcançaram uma outra plataforma, camuflada por árvores frondosas:

-Mestre Elrond prevê o tempo? - indagou Aarne, deveras fascinado. Glorfindel fez uma nota mental para se referir ao velho amigo por «mestre»:

-Não, ele tem visões...

-Prevê o futuro?

-Algo assim. Mas definitivamente, não prevê o tempo... - concluiu o elfo de Gondolin com uma nota de aborrecimento.

Caminharam em silêncio, até irem dar às traseiras da casa senhorial. Aarne não fazia a mínima ideia de como tinham ido ali parar, mas teve o vislumbre dum mensageiro que partia a cavalo. Levava na bagagem a carta de dez páginas que Aarne escrevera a Legolas... Elrond, que lhe desejara uma boa viagem, virou-se e deu de caras com os recém-chegados. Um largo sorriso cresceu-lhe no rosto, e teria crescido mais, não fosse o urgente esbugalhar de olhos por parte de Glorfindel:

-Hmm... Aarne, que bom ver-te a passear! - felicitou o meio-elfo. O mencionado olhou de esguelha para o elfo que o acompanhava, e engoliu em seco; passear uma ova, tinham-no raptado, praticamente! Mas bem lá no fundo, gostara e estava grato pela companhia.

Fez uma pequena reverência:

-Se me permitis, senhor, vou preparar-me para jantar. - lançou um último olhar a Glorfindel e afastou-se. Quando entrou, o elfo loiro que ficara com Elrond deixou os ombros descaírem para a frente:

-Tiveste pena dele? - perguntou Elrond, erguendo uma sobrancelha. Lembrava-se perfeitamente de quando o nobre elfo chegara a Imladris, sabia perfeitamente que Glorfindel se revia naquele elfo encolhido a um canto. Sabia o quão árduo fora construir aquela forte amizade que agora os unia. O elfo de Gondolin abanou a cabeça, tristemente:

-Solidariedade. - volveu. Entraram e encaminharam-se para o salão, onde a mesa já estava posta. Arwen petiscava umas fatias de queijo de cabra:

-Espero que sejas sincero... se bem sabes...

-Sim sim, muito lindo, a sinceridade é a pedra basilar da amizade. - Glorfindel sentou-se e cruzou os braços, aborrecido - Ele não me achou muita piada...

-És um guerreio nato, fazes... grandes investidas. - Elrond olhou em redor; onde estariam os gémeos?

-Logo lhe conto. - prometeu Glorfindel. Se Aarne lhe desse oportunidade para tal, claro...

Auf daß es in seinen Wurzeln warm,
gleich ei'm totem Kinde schlafe.
Und nicht erwecke ein alt- gestr'gen Harm,
mit dem ich die jung' Liebe strafe.


Em Mirkwood chovia. Pela janela da sala, Legolas via as gotas de chuva baterem contra o vidro e escorrerem até ao parapeito. Suspirou e voltou a fitar o mapa.

Um entusiasmado Thranduil assinalava zonas no grande mapa, gloriosamente estendido por cima da mesa:

-Ouve-me isto, é de génio! - exclamou o rei. Tinha a coroa de banda e arregaçara as mangas da túnica - Vamos aproveitar esta chuva e a humidade para atacarmos as aranhas com flechas incendiárias! - apontou um grande círculo que assinalava uma zona no mapa - Só temos de nos certificar que elas se mantêm aqui!

-Tarde demais... - volveu Legolas. Pegou numa pena de ganso, molhou-a no tinteiro e assinalou uma zona no mapa - Um batedor comentou comigo que também já as há aqui.

-Dá-me oitenta elfos, então. - teimou o rei, cruzando os braços - Quarenta vão contigo para aqui e pegam-lhes fogo aqui, - apontou uma zona - e os outros vão comigo e repetimos a operação aqui. - apontou a outra zona e fitou o príncipe, entusiasmado. Lentamente, Legolas assentiu:

-Parece-me bem.

-Não parece, é. É por isso que eu sou rei e tu príncipe, é por isso que eu sou o supremo comandante e tu um mero subalterno... - concluiu o rei. Esperou pelo grande sorriso que deveria surgir nos lábios do filho, mas esse sorriso ficou aquém do esperado. Thranduil revirou os olhos, cansado, e ajeitou a coroa - Já percebi que tens muitas saudades do teu amigo, não precisas de estar sempre a lembrar-me disso...

-Quando é que o mensageiro chega? - murmurou Legolas, cruzando os braços sobre a mesa e apoiando neles o queixo. Thranduil rabiscava rapidamente um plano anti-aranhas num qualquer pedacito de papel:

-Quando chegar...

-Obrigado, meu pai... - suspirou e voltou a endireitar-se. A vida sem Aarne era desoladora... Mas o rei esforçava-se, e como se esforçava!, para devolver alguma da antiga animação a Legolas. O príncipe olhou em redor, pensando em algo; não queria ser um filho ingrato. Voltou a encarar o pai - Tenho fome.

-Que engraçado, eu também! - o rei elfo apoiou a cabeça na palma da mão - Faz algo útil e traz qualquer coisa para comermos. De caminho, diz ao Yrjan para chamar o Aelle.

-E porque não o Tjaden? - depois de Aarne e Ragnar, o tenente era o grande camarada de Legolas. Não lhe agradava minimamente a ideia de Aelle lhe passar à frente. Thranduil regressou ao seu estado mal-humorado:

-Faz o que eu digo!

E Legolas assim o fez. Mas depois não voltou à sala dos mapas e foi fechar-se no quarto, entristecido. Quase esperava ver Aarne a organizar as almofadas que estavam em cima da cama por ordem cromática. Mas Aarne não estava lá e o mensageiro demorava tanto, mas tanto!

O elfo de olhos azuis atirou-se para cima da cama e fitou o tecto. Que aborrecido... Passado algum tempo foi sentar-se à escrivaninha e começou a desenhar o que via pela janela.

Es fallen die Blüten der Kirschen,
wie weiße Tränen auf mich herab.
Zum Zeichen als ob ich nun wäre
erweckt aus dem Schlaf in feucht-kaltem Grab.


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