Nota da (excelentíssima) autora: foram testes, testes, trabalhos, trabalhos. D: Para além disso, desde que fui admitida para fazer salto de obstáculos com o regimento de Lanceiros da GNR tenho-me esforçado bastante para provar aos coronéis que não fui uma má escolha. Mas agora, com as férias da Páscoa, não há escola! Yessss! Sempre tenho mais tempo para escrever. Possivelmente, vou ter alguns dias ocupados, passados no quartel a tratar dos cavalos, mas para mim isso vai ser o bem merecido descanso...

Bom, último capítulo de Jahreszeiten! Vai ser grandinho, para compensar pela demora.

Por último mas definitivamente o mais importante, um grande OBRIGADA! pelas reviews e favs. Fico tão feliz! :)

E agora, a história.


[Lamentierung des Hasses]

Es weihnen in Liebe verstorbene Ahnen,
die eistrunken neigen ihr ehren'es Haupt.
Und all meine Sünden verlieren die Namen,
wenn der Haß das Gewissen beraubt.

Glorfindel puxava o lustre à lâmina da espada por pura diversão. Adorava ver a lâmina comprida e fina, leve como uma pena, brilhar com a luz de uma estrela caída. Desviou os olhos claros da espada para olhar em redor; Imladris preparava-se para o solstício de Inverno, com as árvores vestidas de ouro e uma neblina fria e fina que se erguia das águas do rio. Àquela hora da tarde, já não havia geada na relva nem nas folhas das plantas e umas florezinhas tímidas espreitavam aqui e ali.

Inspirou profundamente o ar puro e foi súbita e barbaramente sacudido por Aarne. O elfo de olhos verdes estava tão eufórico, tinha um sorriso tão colossal, que mal conseguia articular as palavras. Saltitou à roda de Glorfindel agitando vitoriosamente um pergaminho na mão. Por fim acalmou-se e sentou-se num banquinho em frente ao elfo de Gondolin:

-Adoro o Inverno! - anunciou Aarne, as bochechas alvas rosadas de sorrir. Glorfindel ergueu uma sobrancelha perfeita:

-Ainda na semana passada o detestavas... - recordou Glorfindel. Olhou de soslaio para o pergaminho e sentiu um aperto no coração. Não podia ser...

Aarne fez um pequeno escândalo de vitória:

-O Legolas vem! Chega uma semana depois do solstício! - cantarolou o elfo sardento. Glorfindel esforçou-se por sorrir e partilhar da alegria do amigo.

Wie einst ein Splitter aus reinstem Kristall,
das Herz eines Jungen erkalten ließ,
so schenkte die Gnade die Königin
mir die Kraft, auf daß ich dich verstieß.

Observou os lábios de Aarne mexerem-se. Se na Terra Média houvesse metralhadoras, Glorfindel teria, naquele momento, associado o elfo sardento a uma... Aarne falava mas Glorfindel não o ouvia; sentia-se magoado, triste, até revoltado. A sua companhia nunca pusera o elfo de olhos verdes em tal euforia, mas pelos vistos bastara apenas uma cartinha de Legolas a dizer 'Olha, vou para aí!'; com o príncipe de Mirkwood por perto, Glorfindel teria de desaparecer, ficar escondido e esquecido, isso se não quisesse deitar tudo a perder; e claro, o bendito príncipe era, nem mais nem menos, o amiguinho querido de Aarne. E quem era ele, Glorfindel, Glor? Um amigo, sim, mas de certeza que Aarne não sentia por ele aquela amizade extremamente forte, a camaradagem, o companheirismo...

O Mundo consegue mesmo ser injusto!

Suspirou. E reparou que Aarne se calara e o olhava atentamente. Os olhos perturbadoramente verdes do outro elfo haviam-se cravado nele, dando-lhe a desagradável sensação de estar a ser lido:

-Desanimado. - constatou Aarne - Passa-se alguma coisa?

-Passa-se. - Glorfindel esforçou-se novamente por sorrir - Um parvo tapou-me o sol!

-Peço desculpa, se a minha grandiosidade te ensombrou. - troçou Aarne. Ergueu-se e afastou-se para o lado - Melhor?

-Bastante.

-Óptimo. Então, agora contas-me o que se passa.

Glorfindel engoliu em seco. Ficou alguns momentos em silêncio, concentrado, a pensar. Não queria mentir a Aarne, pelo menos mentir-lhe mais, mas também não queria arruinar tudo naquele momento. Quanto mais próximos fossem, pensou, menos mal reagiria o elfo sardento.

Novo suspiro. O elfo de Gondolin ergueu-se e caminhou até à beira da varanda, para depois se apoiar no peitoral e olhar para o rio que corria, no fundo do vale, barulhento e de caudal cheio. Aarne veio colocar-se a seu lado:

-Isto vai parecer completamente idiota... - começou. Aarne sorriu; estava deveras bem-disposto:

-Vindo de alguém completamente idiota, ninguém vai notar... - disse. Glorfindel deu-lhe um calduço que o despenteou - Bruto! Bruto! Bárbaro!

-Chiu. Bom, como eu estava a dizer, - fez uma pausa para organizar um discurso coerente - eu tenho medo.

-Medo. - repetiu Aarne. Um elfo tão grande como Glorfindel, ter medo! Para o elfo sardento, isso era inconcebível:

-Medo. Aarne, tu és o meu único amigo. - para além de Elrond e Asfaloth, claro - Tenho medo que me ponhas de parte...

-Porque vem aí o Legolas. - cortou Aarne, compreensivamente. No fundo, sentiu-se satisfeito com aquela confissão. Sorriu - Isso não só pareceu completamente idiota... como foi!

-Insensível! - escandalizou-se Glorfindel, esbugalhando os olhos. Escondeu a cara nas mãos, dramaticamente - Que falta de tacto!

Riram-se.

Ich habe das Herz aus meiner Brust
mit dem Eisdolch längst heraus gerissen.
Befreit mich von Demut und Strafenlust,
von Wehmut und sünd'gem Gewissen.


Legolas atirava a roupa que levaria na mochila para cima da cama. Então Tjaden, lá sentado de pernas cruzadas, atarefava-se a dobrar meticulosamente a roupa do descuidado príncipe. Empilhou a roupa dobrada, orgulhoso do seu trabalho, e Legolas colocou a mochila em cima da cama. Franziu o sobrolho:

-Isto assim ocupa muito espaço... - opinou. Tjaden revirou os olhos, como se o camarada fosse um caso perdido:

-Tu é que ocupas muito espaço e não sabes. - volveu - Ai de ti se amarfanhares isso!

-Pronto, pronto! - e, com um cuidado exagerado, Legolas começou a arrumar a roupa dentro da mochila - Satisfeito?

Tjaden assentiu.

Também Thranduil, no seu quarto, arrumava a mochila. E o desleixo do príncipe fora herdado do desleixo do rei. Um aborrecido Yrjan dobrava a roupa que um descuidado rei elfo atirava por cima da cabeça:

-És ridículo... - resmungou o conselheiro. Um colete de cabedal aterrou na cabeça quase prateada do conselheiro - E tens má pontaria!

-Pelo contrário, tenho excelente pontaria! - discordou o rei, fechando as portas do roupeiro e virando-se para Yrjan. Os olhos glaciais do conselheiro fitaram-no com aborrecimento - Acertei-te sem sequer ter olhado!

-Muito bom, sim... - cedeu Yrjan, arrumando a mochila do rei. Thranduil sentou-se na berma da cama, tirou a coroa e sacudiu a longa cabeleira loira - Acho uma perfeita imbecilidade ires com o Legolas. O reino precisa do seu comandante-supremo para organizar a defesa e do seu chefe de estado para garantir as boas relações com o exterior. E o teu filho é grande o suficiente para ir a Imladris sozinho!

-Vou a Imladris durante um mês. Só isso. - sossegou-o o rei, sorrindo e colocando uma mão sobre o ombro do conselheiro - Certificar-me de que estou a fazer um bom investimento.

-E certificares-te que o teu filhinho não se aleija pelo caminho. Thranduil, - Yrjan fechou a real mochila e colocou-a no chão. Cravou os olhos azuis, muito frios, nos olhos verdes e escuros do rei - às vezes és um governante irreprimível, às vezes és o maior baldas à face da Terra Média. Durante uns tempos és um pai impecável, depois ficas super-protectivo. Consegues ser um elfo incrível, para depois seres um tirano sádico e cruel... Porquê? Milénios e milénios de convivência e continuo a não te conseguir perceber!

-Incompetência tua... - volveu o obstinado rei. Levantou-se e espreguiçou-se - Vou ver se o Legolas já arrumou as coisas.

O rei saiu do quarto e bufou, irritado; afinal de contas, era ou não era ele um filho dos seres superiores? Era, como qualquer um! Tinha perfeitamente direito a sair um bocadinho, a espairecer, a partir numa aventura com o filho! Não era propriamente uma aventura, mas Thranduil encarava a viagem como tal; só ele e Legolas, cavalgando para Imladris. Perfeito para arejar a cabeça e esquecer por momentos as aranhas, os orcs, os produtores de vinho, os mercadores.

Abriu a porta do quarto de filho e espreitou. Legolas conversava animadamente com Tjaden e aos pés da cama jazia uma mochila de cabedal, cheia e fechada. O rei sorriu, satisfeito, e fechou a porta.

Partiram na manhã seguinte, bem cedo.


Ich schnitt mit Schrei den Blutstrahl entzwei
der dich und mich verbunden.
Da wir die Liebe, die uns einst geheilt,
wie blutschwarze Gäule geschunden.

Depois de almoço, Elrond dispensou Aarne e foi tratar dos seus afazeres. No caminho para o seu pequeno gabinete, encontrou Glorfindel, muito pensativo, sentado no parapeito de uma janela. O elfo moreno esboçou uma careta e foi sentar-se ao lado do amigo:

-Estás a ficar sem tempo. - declarou. Obteve como resposta um suspiro:

-Eu sei... acho... acho que vou desaparecer por um bocado, o que achas? - perguntou o elfo de Gondolin. Elrond abanou a cabeça, de semblante carregado:

-Acho mal. Muito mal. Conta-lhe.

-Ele vai odiar-me! - Glorfindel puxou o próprio cabelo, nervosamente - Detestar-me, vai pensar que fiz dele um parvo!

-E quanto mais tempo deixares passar, pior será a situação. - advertiu-o Elrond.

Glorfindel encolheu os ombros, deixando claro que queria ser deixado a sós com os seus pensamentos. Ficou a ver Elrond afastar-se. Depois fechou os olhos durante alguns momentos, desejando que nunca tivesse voltado a este Mundo novamente; para quê voltar, se tudo o que conhecia se fora, se tudo o que amara desaparecera?

Ficou ali encolhido o dia todo, melancólico. Da janela conseguia ver Aarne, sentado num degrau ao sol a ler. Como desejava ter um mundozinho simples e pacato, como o de Aarne!

Não foi jantar. Em vez disso, encaminhou-se para o quarto de Aarne e ali esperou por ele.

[Anklage der Ahnen]

Und es klagen die Väter der Ahnen:„Verräter!
Die Seele betrogen. Die Ehre belogen.

Após o jantar, Aarne foi para o quarto. Sentia-se demasiado eufórico para atribuir importância ao desaparecimento de Glorfindel. Porém, ao entrar no quarto e encontrá-lo lá, não pôde deixar de se sentir um pouco aliviado:

-Sumiste. Passa-se alguma coisa? - indagou, curioso, indo sentar-se na berma da cama ao lado do elfo loiro de Gondolin. O quarto estava apenas iluminado por uma vela branca, na mesa de cabeceira, e pela luz da lua que brilhava lá fora, num céu sem nuvens. As tonalidades azul e laranja encontravam-se no rosto de Glorfindel, luz e sombra. Os dois pontinhos de luz que eram os olhos do elfo de Gondolin percorreram o quarto, tristemente, até fitarem o chão:

-Tenho de te contar uma coisa. - murmurou. Aarne apercebeu-se de que a situação deveria ser grave. Inconscientemente, tomou as mão de Glorfindel na suas, sinal que apenas apertou mais o coração oprimido do outro elfo. Respirou fundo e prosseguiu - Já ouviste falar dum tal... Glorfindel?

Aarne estranhou a pergunta, mas assentiu:

-E... o que sabes sobre ele? - indagou Glorfindel. O elfo sardento fitou as mãos, pensativamente:

-Que matou um Balrog e voltou dos Salões. - enumerou - E ouvi dizer que vive em Imladris.

Que vive em Imladris! Aarne esbugalhou os olhos, horrorizado, e olhou bem para o elfo à sua frente. Glor... Glorfindel... Glor...

Amargamente, o elfo loiro de Gondolin assentiu:

-Pois... Glor...findel. - concluiu.

Selbstverachtung gepredigt, in Schuld sich verewigt.
In Worten und Tat, eines Mannes Hochverrat.

Aarne deixou o queixo descair. Aquele elfo, ali, à sua frente, a quem tomara as mãos, não era um simples sem-abrigo que procurara nele um ombro amigo! Não era um igual, alguém com quem pudesse ter uma conversa trivial! Era um lorde! Era Glorfindel, o próprio Glorfindel, o elfo saído das lendas que matara o Balrog!

O elfo de olhos verdes apressou-se a retirar as mãos, sentindo o pescoço ficar vermelho. Cerrou o maxilar; aquele nobre elfo a quem faltava nobreza de espírito fizera dele palhaço! O que pensariam os outros elfos de Imladris, quando o viam, tão informal, para com um elfo daquela estirpe? Certamente, que Aarne era mentalmente limitado, ou algo assim! Cerrou os punhos, lutando para conter uma enxurrada de coloridos vocábulso. Expeliu o ar e voltou a olhar para Glorfindel que o fitava, expectante:

-Meu senhor... fez deste seu humilde servo um parvo. - acusou Aarne. Glorfindel escondeu a cara nas mãos:

-Não Aarne, eu não te fiz de parvo! Não me chames senhor, por favor! - implorou o elfo de Gondolin, esfregando a cara - Eu... eu não te conhecia, o meu caminho já se cruzou tanto com a falsidade, com aproveitadores... só... só me quis certificar de que não ia ser assim desta vez!

Mas o elfo sardento abanou veementemente a cabeça loira com madeixas de cobre. Ergueu-se e fez uma vénia:

-Peço-lhe que deixe este seu humilde servo sozinho. - não era bem um pedido, mas uma ordem camuflada de pedido. Glorfindel abriu a boca para falar novamente, mas não lhe saiu nada. Derrotado, abandonou o quarto.

Então Aarne praguejou, esmurrou almofadas e puxou o próprio cabelo. Pilha de pus da classe alta! Aquele... aquele maldito, que se aproveitara dele para dar umas boas gargalhadas! Traidor!

Sentou-se pesadamente na cama, a respirar ruidosamente; bem feito, bem feito! Bem feito, para aprender a não confiar em ninguém! Bem feito! Só Legolas, só Legolas merecia confiança! Ao menos o príncipe de Mirkwood sempre fora sincero, leal, companheiro!

Aarne abanou a mão como um leque; que vergonha que aquele maldito assassino de criaturas das trevas o fizera passar! Que vergonha, que humilhação, que embaraço!

Kein Gott wird dich erlösen, von deiner ehrlos' Schuld.
Zum Manne mußt du werden, doch nicht mehr in deinem "Kult".

Glorfindel foi a correr para os seus aposentos, onde se trancou, destroçado. O que construíra com tanto cuidado e carinho desmoronara-se brutalmente. Tal como tudo o que já conhecera em vida. Tudo se transformara em pó e cinzas. Ficou tão destroçado que nem conseguia chorar, mas também não pregou olho toda a noite.

No dia seguinte não se admirou por Aarne o ignorar completamente e se afastar dele.

Dois dias depois chegaram Legolas e Thranduil.

Trage aufrecht deine Sünden, zeichne sie auf deine Haut,
daß zur Erlösung wirst geschunden, von jedem, der dein Kainsmal schaut!"

Do recanto escondido que era a sua varanda, Glorfindel viu rei e príncipe, sem qualquer insígnia real que os identificasse, pararem os cavalos cansados no pátio. Assistiu, inconsolável e com um horrível sentimento de inveja, enquanto Aarne e Legolas se abraçavam fortemente, como irmãos há muito separados. E não quis ficar para ver mais. Recolheu ao quarto, pegou num cobertor e foi, sorrateiro, para as cozinhas. Pegou em alguma comida e levou-a para os estábulos. Aparelhou rapidamente o seu cavalo, e, aproveitando que os moços de estrebaria estavam atarefados com os grandes cavalos da floresta, partiu sem dizer nada a ninguém.

Apenas Elrond o viu e lamentou a insensata decisão de Glorfindel. Depois voltou a focar a sua atenção em Thranduil, que lhe perguntava como ia a formação de Aarne.

[Das Ende]

So schrieb ich in Stein mein ehrlos Vermächtnis,
uind blutet es noch in meinem Gedächtnis,
denn hin und wieder dann und wann,
schmerzt die Erinnerung daran.

Para Aarne, aquele agitado final de tarde só findou quando se sentou na cama, frente a frente com Legolas. Tinham ido para os aposentos deste e Aarne insistira para que o príncipe o deixasse arrumar-lhe as coisas. E Legolas fez a vontade ao amigo.

Agora, finalmente, podiam matar as saudades. Ambos os elfos se sentiam prestes a explodir de felicidade; após tanto tempo, ali estavam, amigos queridos novamente juntos. E o que falaram! E o que riram e o que choraram! E o quanto se abraçaram! E as coisas fantásticas que contaram um ao outro, e as notícias que debateram. Nem se aperceberam de que o sol pusera, que a lua viera e que já estava novamente de partida.

Enquanto Legolas ali esteve com ele, Aarne nem sequer voltou a pensar em Glorfindel. Apenas lhe interessava que o seu verdadeiro e único amigo estava ali, com ele. E divertiram-se tanto, enquanto estiveram juntos! As piadas que só eles percebiam, os sorrisos cúmplices, as alusões a aventuras passadas, apenas por eles vividas.

Completamente alheios de que, do bosque cerrado de árvores desnudadas do outro lado do vale, um par de olhos tristes vigiava.

Spoken word:
Ich richte mich auf,
wie Bäume, wenn sie wissen, dass es Zeit zum sterben ist.
Ich muss weg hier!


E pronto, acabou esta.

Mais uma vez, agradeço a toda a gente que leu, comentou, adicionou aos favs... muitíssimo obrigada!

Review?