Nota da (brilhantíssima) autora: camaradas! Apesar de todos quererem ajudar Glorfindel, eu vou ser má e deixá-lo à parte mais um bocadinho. Vou dar cinco minutos de fama a Thranduil, também merece.

Bom, não sou grande apreciadora de poesia, mas deparei-me com A criança que fui chora na estrada, de Fernando Pessoa ortónimo, e lembrei-me logo do rei elfo. Então, mais uma vez, vou pedi-lo emprestado ao grande Mestre Tolkien.


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

Thranduil olhou, enfadado, para as paredes do quarto. Era mais um daqueles dias em que uma pessoa acorda e se sente melancólica, sem saber muito bem porquê.

Tirou a coroa, girou-a nas mãos e poisou-a na cama, à sua frente. Aquela coroa pertencera ao seu pai, e um dia pertenceria a Legolas. O rei elfo sorriu, triste, e voltou a olhar em redor; aquele quarto estava impregnado de morte e vida.

Recostou-se nas almofadas e olhou para uma tapeçaria grande, na parede oposta à da cama, que representava uma cena de caça. Era um dos poucos tesouros que trouxera consigo quando viera para Mirkwood.

Lembranças de milénios passados assolaram-no com uma intensidade agonizante; o pai, Oropher, talvez o melhor rei elfo de todos, mas definitivamente o pior pai de sempre; a mãe, frágil e fria; os amigos; Yrjan; a esposa; Legolas...

Suspirou; Thranduil tivera uma educação rígida, controlado pelo pulso de ferro do pai. Começara a aprender a montar e a combater muito cedo e a educação académica fora, a princípio, desleixada. Os poucos amigos que tivera eram todos soldados, e nada mais faziam para além de lutarem entre si e fazerem corridas a cavalo; haviam sido os mais próximos ao futuro rei. Por sua vez, a mãe de Thranduil sempre fora distante; frágil, recusava-se a ir ao jardim com o filho ou cavalgar com ele, temendo adoecer ou cair. Ironia do destino, morrera de uma forma completamente idiota e bem diante de um Thranduil adolescente; brincava com um dos seus mastins favoritos, e o grande cão saltou-lhe para cima, não para a magoar mas para brincar com ela, e a elfo caíra e batera com a cabeça.

Fora a primeira morte que Thranduil testemunhara.

O rei elfo olhou para a coroa; Oropher tinha-a na véspera do combate e só a tirara para colocar o elmo. De pouco lhe valeu; naquele dia fatídico, por causa daquela estúpida Última Aliança, Thranduil vira o pai ser decapitado, mesmo à sua frente. Vira o seu escudo ser salpicado com o sangue que também lhe corria nas veias. E, para onde quer que olhasse, vira o mesmo destino chamar os seus amigos.

Só restara ele. O rei elfo escondeu a cara nas mãos; o único consolo que encontrara fora Yrjan, que ficara para proteger o povo. O conselheiro de Oropher passou então a ser seu conselheiro e amigo, mas jamais seria o irmão de armas que Thranduil tanto desejava e perdera.

Thranduil voltou a fitar as paredes em seu redor; quando o palácio fora edificado, a dor da perda era ainda muito recente e Thranduil ordenou que o quarto não fosse pintado, que permanecesse com a cor escura da pedra. Fechou os olhos; fora naquele palácio que conhecera a mãe de Legolas...

Ao contrário da mãe de Thranduil, Ingrid era uma elfo arrojada, com vontade férrea e combativa. Cativara de imediato a atenção do jovem rei, que rapidamente se esqueceu que estava de luto. Mas Ingrid tinha mais que fazer do que aturar um jovem apaixonado; a elfo tratava dos cavalos e todos os animais a adoravam, excepto Cuchulainn. Naquela altura, também jovem, o cavalo rebelde não obedecia a ninguém, por vezes nem mesmo ao dono. Um dia mordeu Ingrid porque não queria sair do pasto, e a elfo chorou de dor e frustração por não se conseguir fazer respeitar pelo cavalo. Foi nessa altura que Thranduil correu em seu auxílio e ela, de orgulho ferido, deixou-se encantar pelo galante rei.

Foram mais amigos e companheiros do que amantes, e, jovens que eram, deixaram-se consumir pelo fogo da paixão. Mas árvores viçosas ardem rapidamente...

Celebraram a sua união apressadamente, antes que se notasse que algo crescia no ventre da futura rainha. Naquela altura, tudo parecia perfeito para Thranduil; uma esposa fantástica, tempos de paz e dois filhinhos que aí vinham. O jovem rei esqueceu-se que era rei e fez planos para ser pai; jurou ser o melhor pai do mundo, passar muito tempo com os filhos, cavalgarem todos em família, dar-lhes a melhor educação.

O rei elfo sorriu, amargamente, e fechou os olhos; naquela manhã de Inverno Ingrid tinha batido palmas de alegria e dissera-lhe que ia finalmente ser pai. Vieram os médicos e Yrjan e Thranduil esperou fora do quarto, daquele preciso quarto, ansioso por beijar a testa da esposa e ter os filhos ao colo. Tinham-lhe dito que ia ser rápido.

E Thranduil esperara. Mas o dia foi avançado, avançando, e os médicos saíam e entravam. E Ingrid gemia e gritava. O jovem rei começou a ficar preocupado, mas como Yrjan estava lá dentro, estava certo de que tudo correria bem.

Era noite cerrada quando Yrjan o chamou. Tinha as vestes escuras suadas e os braços, com as mangas arregaçadas, estavam manchados de sangue. Thranduil começou a assustar-se, e assustou-se ainda mais ao entrar no quarto e reinar um silêncio sepulcral. Ingrid jazia na cama, completamente tapada, imóvel, e a seu lado estava um pequeno embrulho. O rei elfo engoliu em seco e preparava-se para a chamar quando uma elfo, pesarosa, lhe deu um bebé para os braços; um elfinho pequenino, rechonchudo e loirinho, que dormia calmamente. Legolas sobrevivera ao parto que lhe matara a mãe e a irmã.

Thranduil secou uma lágrima solitária com as costas da mão, voltou a colocar a coroa e apressou-se a sair do quarto. Odiava aquele quarto! Odiava aquela cama! Quando tivesse paciência para tal, queimaria a mobília, selaria o quarto e mudar-se-ia para uma outra divisão. Caminhou pelos corredores, ainda perdido em memórias; nos meses, anos que se seguiram à morte da rainha, Thranduil andara obcecado com o filho. Ele próprio o alimentara, ele próprio lhe dera banho, ele próprio o vestira, o embalara, brincara com ele, contara-lhe histórias, ensinara a montar. Durante quatro anos fora pai. Única e exclusivamente pai, até Yrjan o conseguir fazer ver que o seu desequilíbrio de funções estava a colocar o reino à beira da guerra civil.

O rei elfo sorriu, discretamente, ao passar por um tapete que tinha a ponta enrodilhada. Fora nessa altura que o abençoado Aarne aparecera, como um presente dos céus. O super-protector Thranduil não queria ninguém a tomar conta do filho, mas o pequeno Legolas tinha sorrido e corrido para Aarne quando o jovem elfo, nervoso, tinha entrado na sala do trono para uma audiência.

Thranduil abriu a porta do quarto Legolas. O príncipe escrevia, provavelmente uma carta para Aarne. Olhou o rei por cima do ombro, que se foi sentar na sua cama, esticou as pernas e cruzou-as:

-Sente-se bem, meu pai? - perguntou. Não era a primeira vez que via aquele brilho triste nos olhos verdes do rei. Thranduil encolheu os ombros:

-Sentir-me-ia melhor se o chato do meu filho me viesse fazer companhia. - volveu Thranduil. Sorriu quando Legolas pôs a carta de lado e se atirou para cima da cama. O príncipe apoiou a cabeça nas pernas do pai, que lhe desfez as tranças para as voltar a fazer - Apetece-me sair. O que achas de uma voltinha a cavalo?

Thranduil adorava cavalgar com o filho; inconscientemente, tornara o filho no irmão de armas que perdera. E estava mesmo a precisar de espairecer um pouco. Porém, Legolas franziu o cenho:

-Disse-me que tinha uma reunião hoje, com os seus senhores de guerra.

O rei elfo bufou, aborrecido; reunião com os senhores de guerra... Legolas era um dos seus senhores de guerra. Encolheu os ombros:

-Adia-se. Não estou com paciência.

-Mas adiou-a na semana passada...

-Legolas, - chamou Thranduil docemente, enquanto puxava com cuidado a orelha bicuda do filho - eu sou o rei, eu sou o pai. Logo, eu mando duplamente.

O príncipe limitou-se a revirar os olhos. Havia muito que se habituara às crises de Thranduil; numa primeira fase, o rei procuraria desesperadamente a companhia do filho, para depois tomar consciência da sua falta de controle e se afastar bruscamente, o que originaria a terceira e última fase, quando o rei encontrava novamente o seu equilíbrio. No entanto, por vezes a impetuosidade de Thranduil ainda conseguia magoar e confundir o jovem elfo.

Thranduil refazia as tranças ao filho quando alguém bateu à porta e espreitou. Yrjan fulminou o rei com os gélidos olhos azuis:

-Chega aqui. - era mais uma ordem do que um pedido. O teimoso rei abanou a cabeça:

-Pisga-te, estou ocupado! - resmungou. Legolas engoliu em seco e olhou de esguelha para o pai. Após uma breve conversa sem palavras, o rei elfo suspirou, derrotado, e seguiu Yrjan para fora do quarto. O conselheiro encostou-se à parede e massajou as têmporas:

-Reunião... atrasado... irresponsável! - reprimiu-o. Thranduil endireitou-se em toda a sua imponente estatura:

-Adia... não quero saber... não me chateies. - respondeu. Mas Yrjan esbugalhou os olhos:

-É a defesa do teu povo que está em jogo! - exclamou, indignado, espetando um dedo acusador no peito do rei - Provavelmente não te lembras do que os batedores disseram sobre uma certa runa andar a aparecer escavada nas cascas das tuas árvores.

Thranduil permaneceu inexpressivo, mas amaldiçoou-se mentalmente. Mordiscou o lábio inferior, pensativo, e depois soltou um suspiro infeliz:

-Fazemos assim; passas a rei.

-Não, fazemos antes assim; hoje tens a tua reunião e amanhã és pai, sim?

-E se amanhã tiver de ser rei novamente?

Yrjan encolheu os ombros:

-Chapéu. - disse. Empurrou Thranduil em direcção às escadas - Mexe-te.

-Eu estava a entrançar o cabelo do meu filho, caso não tenhas reparado. - resmungou o rei secamente. Virou costas e afastou-se, cabisbaixo. Yrjan revirou os olhos e entrou no quarto. Ficou bastante satisfeito por ver que Legolas já fizera novamente as tranças no cabelo loiro:

-Não te esqueças da tiara. - lembrou-o Yrjan. Legolas esboçou uma careta insatisfeita, exactamente igual à de Thranduil - Tiara, já!

Legolas suspirou e adornou a cabeça com a odiada tiara. Dirigiu-se à sala do trono acompanhado por Yrjan e entrou; os senhores de guerra já lá estavam, imponentes, e Thranduil, visivelmente aborrecido, tamborilava com os dedos no braço do trono. Trocou um olhar ameaçador com Yrjan, para depois se esforçar para se concentrar e cumprir as suas funções.

Lá no fundo, desejou puder estalar os dedos e ficar a sós com o filho e com os cavalos. Montariam e divertir-se-iam.


Review?