CAPITULO 8. MAU HUMOR

Fazia meses que o corpo de Michiru havia se transformado em uma bomba relógio. Em um momento começava a chorar desconsoladamente, queixando-se de como gorda e feia estava, como começava a rir abertamente sem motivo algum. Despertava no meio da noite para pedir a Haruka uma combinação explosiva de frutas que a jovem corredora havia tido náuseas ao provar. Seu corpo deixava à mostra seu estado e a noticia não tardou em difundir-se.

A violinista Michiru Kaiou estava gravida. Jornais, televisão, rádio... Todos deram voz a noticia. A imprensa começou a assedia-la, perguntando se Haruka era o pai. Michiru sorria e dizia que sim e então a acometiam com a seguinte pergunta: Para quando é o casamento?

Michiru começava a rir com paciência e respondia que Haruka e ela não precisavam se casar para saber que se amavam.

Haruka entrou no estúdio e encontrou sua sereia sentada diante de uma tela. Levava dias enfornada em uma nova pintura sobre a vida submarina. A prematura forma de um golfinho se adivinhava, saltando entre as ondas, com um sol do entardecer, ou amanhecer atrás de sua tênue figura. Haruka deixou o capacete da moto em cima da mesa e caminhou até sua companheira. Se deteve ao ver que os ombros de Michiru tremiam levemente e se surpreendeu ao descobrir lagrimas nos olhos de sua bela amante.

"Michiru...", se ajoelhou a sua frente. "Que ocorre, lhe dói algo?"

Michiru negou com a cabeça e se passou a manga pelos olhos, suspirando.

"Não posso continuar com essa pintura", sussurrou, deixando a paleta de cores no chão.

"Por que?"

Michiru se colocou em pé e se acercou a uma das janelas da sala. Acariciou o vidro com a mão e suspirou.

"Não sei, A inspiração me abandonou, suponho...", voltou a suspirar. "Como tudo."

Haruka se colocou de pé e caminhou até estar atrás dela. Acariciou seu cabelo e a abraçou suavemente.

"Como tudo?"

"Não me ocorrem ideias para compor novas canções... Nem para pintar... Hotaru já não parece precisar de mim e Setsuna não nos visita há tempos..."

"Não diga besteiras... Todos os artistas atravessam crises de ideias e a respeito de Hotaru e Setsuna... Hotaru precisa de você, é uma menina de doze anos. E Setsuna sempre foi muito independente, mas vem nos ver regularmente. Que acontece, amor?", perguntou Haruka, preocupada.

"Dentro de dois meses estarei tão gorda que não poderei ir na turnê da Orquestra Sinfônica. Tampouco poderei ir te animar nas corridas. Se a tudo isso unirmos a 'crise de ideias'... O que me resta, Haruka? O que me sobra?"

"Tem a mim" respondeu Haruka beijando seu rosto, preocupada porque desde que Michiru estava gravida, sua insegurança havia aumentado terrivelmente.

Michiru voltou a suspirar, acariciando as mãos de Haruka, depositadas em cima de seu abdômen protuberante.

"Sim, ainda tenho você... Mas você não para de flertar com todas as garotas bonitas que passam pelo seu caminho", murmurou Michiru de forma quase inaudível, sua voz quebrada.

Haruka se separou ligeiramente dela.

"Faz muito tempo que já não faço isso, Michiru... Diga-me o que acontece realmente".

Michiru a olhou fugazmente e sorriu. Caminhou até a tela e a segurou. A olhou demoradamente e, rasgando-a, a jogou no chão.

"Quer saber o que me acontece?", gritou de repente, assustando Haruka. "Acontece que sou um fracasso. Não sirvo pra pintar, nem pra tocar violino, tenho que tomar cuidado com o que como, com o que faço... Meus pais me negam como filha e você e eu nem somos casadas!"

Haruka passou a mão pelo cabelo, confusa.

"Quer... Que casemos?"

Michiru respirou fundo tentando conservar o controle.

"Não... Não se trata disso. Se nem eu mesma sei o que me passa, como vouy dizer a você?", sussurrou, olhando pela janela. A ira havia desaparecido de seus olhos, parecia que Michiru voltava a ser a mesma de sempre. "Haruka.."

A jovem loira caminhou até a jovem de cabelo azul esverdeado, que estava de costas.

"Diga", sussurrou, disposta a dar a Lua a Michiru se com isso pudesse alegra-la e aliviar sua dor.

"Abraça-me", foi a resposta, quase inaudível.

Haruka agiu sem pensar e obedeceu, rodeando-a calidamente pela cintura, depositando um beijo em seu pescoço. Michiru deu meia volta e apoiou a cabeça no peito de Haruka, tremendamente esgotada pela tensão acumulada. Haruka a abraçou com força e passou a mão pelas grossas mechas de seu cabelo, sussurrando palavras ternas em seu ouvido. Ficaram em silencio até que, de repente, Michiru levantou a cabeça, surpreendida, com os olhos abertos.

"Haruka!", exclamou. "Você notou?"

Haruka pestanejou varias vezes, confusa.

"Notei... Mas não sei o que p..."

"Um chute!", exclamou Michiru alegremente. "Isso foi um chute!"

Haruka se separou ligeiramente dela e acariciou seu abdômen, deixando a palma da mão no lugar em que havia notado algo quando abraçava Michiru.

"Foi aqui, verdade?", perguntou sorrindo entusiasmada. Michiru assentiu.

"Então você notou..." sussurrou. "Oh", exclamou. "Isso foi outro chute", murmurou com o rosto contraído.

"Doeu?"

"Um pouco, mas já passou. Acredito que vamos ter um bebê bastante travesso", começou a rir.

Haruka deu um beijo no rosto de Michiru e também começou a rir.