AVISO:

Os Vingadores não me pertencem. Todos os créditos são da Marvel e escrevo sem fins lucrativos.

Como em todo o processo de escrita contei com a ajuda e apoio moral da Cobaia – simpática criatura que me impede de matar todos os personagens no primeiro capítulo – creio que seja justo ela ser mencionada aqui.

Essa é a primeira vez que escrevo uma fic, então, por favor, sejam pacientes =)

No mais... divirtam-se! o/

– O deio ser eu a dizer isso... mas estamos ferrados.

O comentário cretino, ainda que verdadeiro, fez Nick Fury trincar os dentes e dirigir a Stark o olhar mais mortífero que poderia lhe reservar. Não necessitava que o "gênio-bilionário-playboy-filantropo" lhe esfregasse na cara os contínuos fracassos das últimas missões – havia uma pilha generosa de relatórios, chamadas e reclamações fazendo residência em seu escritório para lembrá-lo disso –, e nem precisava que o advertissem de que até o momento ninguém tinha ideia de como resolver o problema.

O fato é que monitorar as atividades ilegais e deter as investidas ambiciosas do famigerado Dr. Doom era rotina para os agentes da S.H.I.E.L.D. Contavam com uma rede de espiões experientes vigiando cada pequeno movimento do ditador, e possuíam agentes infiltrados roubando informações confidenciais e sabotando projetos potencialmente perigosos. Tinham, no geral, um padrão bastante confortável de convivência. Ou assim foi até três semanas atrás, quando inesperadamente – surpreendendo espiões e infiltrados – Victor Von Doom resolveu modificar o método de criação dos doombots, revestindo-os com algum tipo de escudo mágico, tornando-os invulneráveis à maioria das armas existentes no planeta, e, para piorar, decidiu designar ataques não apenas a alvos políticos e militares, mas também a civis comuns, gerando a pior onda de caos generalizado já vista depois do ataque Chitauri.

Diante da destruição massiva de propriedades públicas, dos atentados covardes contra centros turísticos, e das centenas de cidadãos feridos, a Iniciativa Vingadores foi acionada para resolver o problema... e só então descobriram, alarmados, que apenas Thor e o Hulk eram capazes de causar danos reais às máquinas.

Agora, trancados naquela sala penumbrosa, Fury e os Vingadores se reuniam mais uma vez para encontrar uma solução – ou milagre – que lhes permitisse acabar com todos os malditos doombots sem causar mais prejuízos, caos e ruínas.

E, nesse quesito, os comentários mordazes de Stark não ajudavam em nada.

– Precisamos de alguém que entenda de magia. – sentenciou Natasha. Fury cruzou as mãos às costas e esperou, acompanhando o olhar frio da assassina. – E nós conhecemos alguém relativamente fácil de encontrar.

Sobrancelhas foram erguidas, olhares incrédulos trocados e pigarros constrangidos surgiram. Todos os presentes sabiam a quem ela se referia, apenas consideravam difícil dizê-lo em voz alta.

Clint foi o mais honesto ao expressar desgosto. Largou a aljava e saltou da cadeira com um olhar furioso.

– Não pode estar falando sério. – pediu. A mulher continuou impassível e ele xingou baixinho. – Nat, o homem tem um saco de gatos no lugar do cérebro! Gente! – apelou quando a viu irredutível.

No breve silêncio que se seguiu seis pares de olhos ansiosos pousaram sobre o deus do trovão sentado num canto. O homem estivera distraído, mordiscando seus preciosos pop-tarts, e os encarou atordoado.

Fury suspirou. Talvez nem todos na sala soubessem de quem Natasha estava falando.

– Que feiticeiro? – perguntou Thor notando o clima tenso.

– Loki. – respondeu Fury.

A fisionomia do asgardiano afundou numa carranca sombria, cheia do mais profundo ressentimento, e trovões ribombaram ao longe.

Meses atrás, numa tentativa de conquista falha, Loki deixara sobre a Terra um rastro de destruição impossível de ser ignorado ou perdoado. Aliara-se aos Chitauri – uma raça alienígena que, segundo Thor, tinham fama de ser mercenária, legítimos saqueadores de planetas –, os ajudara a invadir o mundo humano, perpetrara ataques covardes contra gente indefesa e quase provocou a aniquilação total de Nova Iorque. Pessoas inocentes morreram, foram feridas ou perderam familiares durante a invasão. Portanto, não os surpreendia que Thor não estivesse caindo de amores pelo irmãozinho – em especial depois de o malandro o haver esfaqueado durante a batalha.

– Loki poderia deter a magia de Doom? – inquiriu Fury dando a volta na mesa de conferência, permitindo-se pensar nas vantagens e desvantagens daquela ideia.

– Possivelmente. – Thor concordou relutante.

– Não! – Clint esmurrou a mesa. Natasha pôs uma mão reconfortante sobre o ombro do arqueiro, tentando calá-lo. – Vocês vão trazer um lunático pra cá e deixar ele se encontrar com outro cara tão maluco quanto ele!? Maravilha! Quero minhas passagens para o Havaí enquanto ele ainda existe.

– Quieto, agente Barton. – Fury cortou sem desviar o foco.

– Não temos opção. – Steve resolveu intervir. – Quantos feiticeiros nós conhecemos? E quantos nos ajudariam agora?

Poucos, seria a resposta, e nenhum deles estaria disposto a se arriscar numa briga como essa. A falta de opções, por mais que os desgostasse, exigia atitudes drásticas.

Com um suspiro resignado Thor largou o pop-tart e ficou de pé.

– A magia de Loki não pode ser tomada, no entanto All-father conhece métodos para restringi-la. Mesmo nessas circunstâncias um mago hábil poderia identificar encantos. – deu de ombros. – Suponho que dessa maneira Loki não vá representar perigo.

O grupo de heróis demorou a assimilar a novidade, e levou ainda mais tempo para que se dessem conta do leque imenso de possibilidades que lhes surgia.

É verdade que lhes revirava o estômago pensar que precisariam pedir ajuda ao deus das trapaças – sobretudo após o desgraçado ter esfregado sal na ferida de cada um deles –, mas não podiam deixar de sentir uma alegria mesquinha ao imaginar o antigo oponente despojado de seus poderes – sua maior fonte de orgulho –, tão humano quanto era possível um asgardiano ser, obrigado a ajudá-los e submetendo-se às vontades de seus "gentis anfitriões".

E ainda chutariam o traseiro de Doom como brinde!

De soslaio Fury notou a mudança no clima da sala e sorriu interiormente. Enquanto Steve e Natasha conversavam com Clint, acalmando quaisquer temores residuais e convencendo o arqueiro a não enfiar uma flecha na garganta do malandro, Stark e Bruce comentavam tópicos de estudos que poderiam ser feitos enquanto o trapaceiro estivesse entre eles – pesquisas sobre o funcionamento e origem da magia, e a fisiologia de um mago asgardiano – e pareciam completamente alheios ao resto do mundo. Eram bons homens. Um pouco egoístas, ligeiramente ingênuos, mas essencialmente promissores.

– E quanto tempo será necessário para anular a magia de Loki e trazê-lo para cá?

A aspereza magoada despareceu, substituída pela apreensão e hesitação, porém o sorriso do trovejante foi cheio de promessas confiantes.

– Discutirei a sentença de Loki com All-father. Retornarei o mais breve possível com uma resposta. – assegurou.

Decisão tomada Thor saiu da sala com passos decididos, a longa capa vermelha ondulando as suas costas e o brilho prateado do martelo de guerra surgindo vez ou outra em sua cintura.

Aliviado, Fury fingiu não ouvir quando Clint se inclinou para Natasha e resmungou:

– Qual a chance de terem jogado a chave da cela fora?

Ж

Algemado à mesa de pedra Loki sentia a lâmina cega da adaga favorita do Carcereiro romper-lhe a pele e os músculos das costas, expondo cada frágil vértebra da coluna ao ar infecto da masmorra. A dor excruciante o fez trincar os dentes e puxar os braços num movimento reflexo, forçando as algemas laminadas contra a pele macia dos pulsos finos e acrescentando mais um item a crescente lista de desconfortos. As feridas latejavam dolorosamente, ardiam quando o suor escorria para a carne exposta, e mesmo as cicatrizes pinicavam conforme o coração acelerava.

Seu único alento em meio àquela agonia era pensar que em breve a punição terminaria; a qualquer momento a porta se abriria, ele seria liberto, e todo o tormento chegaria ao fim. Ou não? Era impossível calcular a passagem do tempo ali, sem janelas ou relógios para guiá-lo, apenas as idas e vindas do Carcereiro...

O porrete de madeira colidiu contra sua cabeça, fazendo os ossos do pescoço estalarem e seus dentes baterem contra a pedra áspera. Por alguns segundos o mundo desvaneceu e um zumbido baixo, irritante, lhe preencheu a mente. À beira da inconsciência percebeu que o Carcereiro o liberava das grilhetas; os dedos longos, nada gentis, puxavam-no para trás pelos cabelos, expondo a garganta frágil de maneira preocupante.

Lembrava-se de que Odin exigira sua devolução com vida ao cabo dos dois anos de punição. Não obstante, que aconteceria se o Carcereiro se empolgasse e o matasse acidentalmente?

– Que há, Pequeno Príncipe? Já cansou? Não está confortável? – o hálito morno contra a pele enviou-lhe um arrepio assustadiço espinha abaixo. O outro riu. – Sabe, os Aesir ficaram surpresos quando All-father concordou com a sentença. Todos esperavam alguma resistência por parte do bom rei. Acho que você conseguiu irritá-lo. Mas, ora, quem é que não ficou chateado com aquela história de parricídio? E o ataque contra Jotunheim? Muita covardia. Hum-hum... o que é que se podia esperar de um filhote defeituoso de Gigantes?

Sem aviso o Carcereiro o empurrou de encontro à mesa. O deus caído ouviu o crack familiar quando a ponte do nariz rompeu, e sentiu o sangue morno escorrer em profusão pelo rosto, e mesmo assim não encontrou forças para gritar, se enfurecer ou no mínimo protestar. Tudo o que conseguiu foi baixar o olhar e deixar-se ficar à espera do irremediável. Seria tolice oferecer ao Carcereiro qualquer desculpa para alongar as "Lições do Bom Príncipe" – apelido carinhoso que o sadista atribuíra às sessões de tortura.

Porém, para si e mais ninguém, admitiria: seu coração estava partido, se estilhaçando lentamente à mercê das vontades e verdades proferidas pelo carrasco.

Era mais que evidente a inépcia de Odin em se preocupar com a segurança ou a sanidade de Loki. O maldito bode velho de importava mais com sua imagem de perfeição impoluta diante dos Nove Reinos que qualquer outra coisa no universo.

Aos olhos de seus súditos seria o eterno soberano de coração afável e punhos de ferro. Sábio na paz, imbatível na guerra. Sempre bom. Sempre justo. Tão benevolente... Não obstante, o que pensariam se lhes contassem a história do infeliz Gigante de Gelo, levado ao Reino Eterno e criado como príncipe? Que diriam diante da farsa, da cruel mentira, que fizera tal criatura acreditar que algum dia, se merecesse, poderia se tornar rei?

Talvez rissem, afinal, era uma boa anedota.

Mas será que ao menos uma vez, por um minuto apenas, Odin enxergara em Loki um filho verdadeiro? Alguém digno de seguir seus passos, de levar nos ombros o mesmo fardo? Não, claro que não. E era um alívio constatá-lo, já que nos últimos tempos o deus caído pouco se incomodava em pensar no falso pai.

A mágoa agora tinha novos alvos.

Pensava em Frigga e nos sorrisos amáveis, nas mãos macias em seus cabelos, as palavras sutis que lhe sussurrava antes de dormir. "Eu amo você, meu pequeno", ela dizia todas as noites. Pena ser um amor tão frágil e desleal. E pensava em Thor, balançando aquele maldito martelo de guerra com um sorriso ingênuo no rosto enquanto prometia jamais deixar qualquer mal o atingir e ao mesmo tempo o arrastava para as mais insanas aventuras. Uma dupla de tolos felizes.

Qual mãe em sã consciência sustentaria um embuste tão medonho? Que irmão desistiria do outro após algumas palavras cruéis e socos aleatórios?

A verdade, pura e simples, é que ninguém o amara.

Como poderiam? Que provas deram?

Animado pela falta de reação o Carcereiro estalou a língua, foi até o extremo da saleta e retornou com um balde que Loki conhecia bem demais. Havia sempre quatro opções para o conteúdo e nenhuma delas era agradável. Forçando a visão conseguiu entrever o vapor leve subindo. Duas alternativas estavam descartadas.

Cuidadosamente o torturador mergulhou uma caneca no balde e empurrou o deus das trapaças para que deitasse de costas. Ele tentou resistir, quis recuar, mas tudo que conseguiu foi esfregar a ferida aberta contra a pedra e intensificar a dor atroz. Quase chorou de agonia. Quase.

– Calma, Pequeno Príncipe. – o homem zombou. – Não queremos acidentes aqui, não é?

Deteve os movimentos erráticos do prisioneiro com a mãozorra pesada e lhe tampou o nariz sem se incomodar com o sangue. Sob o capuz negro assobiava, esperando. Quando a asfixia superou a resistência do deus e ele abriu a boca para respirar o Carcereiro verteu o conteúdo fervente da caneca goela abaixo.

O trapaceiro tremeu, engasgou e se debateu dolorosamente. Teria gritado em agonia se suas cordas vocais não estivessem tão danificadas. Parte da beberagem oleosa escorreu pelo queixo, pescoço e peito, deixando uma longa queimadura na pele branca; o resto seguiu o caminho abrasador pelas entranhas do cativo.

– Oh, que desperdício! – o Carcereiro tagarelou alegremente. – Sorte nossa eu ter muito mais do onde veio esse.

Em meio à dor desumana Loki implorou aos deuses para desmaiar depressa.

Embora fosse um mago habilidoso, com poderes capazes de diminuir danos físicos severos e torná-lo invulnerável à maioria dos ferimentos comuns, sua magia vinha sendo desgastada lentamente, solapada pelas paredes revestidas de encantos opressivos e quebrada pelas provações constantes, seus dons diminuíam até quase inexistirem. Algumas vezes os sortilégios do malandro simplesmente deixavam de funcionar, colocando-o a um passo da morte certa – e nesses momentos o Carcereiro se valeria das pedras de cura e poções restauradoras para tratar das feridas mais graves e garantir que seu precioso prisioneiro continuaria a respirar.

– Um príncipe morto, – o sádico dizia nessas horas. – causa problemas para muita gente.

As torturas prosseguiriam, seguindo o ritmo peculiar das ideias do carrasco, oscilando conforme seu humor e inclinações criativas. E que o destino dos deuses fosse gentil e jamais permitisse que Thanos conhecesse os algozes asgardianos, pois aí sim descobririam o significado de , pois aí sim descobririam o significado de agonia.